Vittorio Medioli

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O cobre cobrado

Publicado em: Dom, 05/12/21 - 03h00

Há dois meses, uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do sistema municipal de Betim foi violada durante uma madrugada de final de semana e espoliada de todas suas fiações elétricas, internas e externas. Perderam-se, assim, 880 unidades de vacinas contra a Covid e outras centenas eficazes contra outras doenças; justamente num momento em que as vacinas faziam diferença.

Ficou prejudicada, dessa forma, a população que depende do atendimento público em geral. As perdas de medicamentos e a recuperação das instalações elétricas geraram um forte prejuízo para a prefeitura, leia-se a população, de mais de R$ 300 mil. Acrescente-se a isso o atraso na vacinação, que provavelmente custou alguns casos a mais de Covid, e entre eles pode ter ocorrido morte.

Essa antissocial atitude de espoliar as instalações públicas de fiações, de computadores e outros materiais, vejo-a, pessoalmente, como um crime hediondo. Absolutamente perverso, porque atinge diretamente os usuários naquilo que mais precisam e aguardam dos cuidados do Sistema Único de Saúde (SUS).

Em Betim e municípios da microrregião, em 2016 e 2017 as espoliações de fiações se davam quase semanalmente em escolas, UBSs e outras instalações públicas expostas aos riscos dos delinquentes. De regra, figuras miseráveis, aliciadas por quem tira o proveito maior da comercialização do metal de cobre, que, depois de “legalizado”, é vendido a R$ 150 o quilo (vejam na internet para crer).

Algumas escolas foram espoliadas mais de três vezes em dois anos. Foram centenas desses assaltos, sem poupar nada nem ninguém, apesar de paralisar serviços essenciais destinados à população.

As ocorrências diminuíram mais de 90% de 2016 para hoje. O ritmo, que era alucinante, gradativamente caiu em decorrência dos cuidados de segurança, especialmente os digitais, instalados na cidade. A monitoração durante as 24 horas é mantida numa central compartilhada por todas as forças de defesa do município. Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Municipal, Defesa Civil, Bombeiros participam do mesmo esforço integrado de prevenção, atendimento e repressão à violência e aos crimes.

O número de ocorrências violentas caiu uma média de 750 por mês, em 2016, para apenas 130 por mês, em 2021. Algo que parecia coisa de outro mundo, mas ainda tem margem para melhorar. Obviamente não colabora apenas a segurança redobrada e equipada, mas ações sociais para prevenir, resgatar e corrigir infratores, especialmente menores de idade.

A identificação de locais e dos indivíduos críticos ligados à repetição de eventos criminosos, a recuperação de jovens usuários de drogas, a variação de uma rede de comunidades terapêuticas conveniadas à prefeitura, o aumento dos cuidados com famílias (mais de 70% dos atendidos em programas sociais), o fortalecimento e melhoria de todos os serviços públicos municipais, a própria limpeza urbana e o asseio com que se cuida dos espaços públicos, a ampliação da rede de iluminação, em especial na periferia, a troca por lâmpadas LED em 100% do território, tudo faz parte de um conjunto inteligente e coordenado conscientemente. Assim como guardas municipais e policiais militares foram atendidos com a capacitação, a integração num “Observatório de Segurança” tem facilitado a escolha de ações pontuais e eficientes, sem aumento de gastos.

Pois bem, o ataque à UBS Dom Bosco, alvo da última covardia de uma quadrilha, foi, evidentemente, conduzido por profissionais, altamente especializados no roubo de fiações.

Chegou à minha mesa de prefeito o caso para a escolha de medidas de recuperação do estrago. Na reunião se definiu que esta seria “a última” que a quadrilha aprontava e não teria trégua ao encalço dos bandidos. Em poucas semanas, a Polícia Civil, delegacia de Betim, entrou em campo, a Guarda Municipal e o “Observatório” foram para a rua, coletando informações e pegando a pista certa.

Na semana passada, foi preso e conduzido para atrás das grades um indivíduo que, durante as investigações e quebras de sigilos concedidos pela Justiça, movimentava cerca de R$ 400 mil por mês, levava vida de marajá, luxos do melhor requinte, e se autodefinia como o “Rei do Cobre”. Para não pairarem dúvidas, tatuou na cabeça as iniciais RC e, ainda, esbanjava bravatas nas redes sociais. No fundo de uma das residências foram encontrados 260 kg de cobre sem origem e ainda não descaracterizados.

O município, por meio de sua Procuradoria, entrou com uma ação reparatória dos danos, que ao longo dos últimos dez anos passaram de R$ 25 milhões por esse tipo de assalto. O município quer de volta o prejuízo para direcioná-lo a obras sociais, as mesmas que poderiam ter sido realizadas, e não o foram.

O Brasil não pode continuar a ser sangrado e deixar como real aquele sentimento perverso de que “roubar compensa”. 

Agradecimento especial aos delegados Roberto Veran, Marcelo Cali e ao comandante da Guarda Municipal Anderson Reis.

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