Faroeste candango

Senador foi morto por pai de Collor na frente da família em sessão de despedida

Vítima de Arnon de Mello era suplente e participava da última sessão antes de devolver o cargo ao titular. Levou a família e mudou de lugar para filho fazer foto

Por Renato Alves | Levy Guimarães
Publicado em 03 de dezembro de 2023 | 09:30
 
 
José Kairala era comerciante em Brasileia, no Sul do Acre, a 234 km da capital, Rio Branco Foto: Reprodução

Um dos tiros disparados pelo senador Arnon de Mello, dentro do Senado, em 4 de dezembro de 1963, acertou o também senador José Kairala, que, aos 39 anos, era suplente. Substituía José Guiomard havia seis meses. Tempo em que fez 13 discursos e apresentou só dois projetos. Devolveria o cargo ao titular, que havia tirado licença médica, no dia seguinte à sua última sessão. Foi baleado na frente dos três filhos pequenos, da esposa, que estava grávida do quarto, e da mãe. A família fez questão de prestigiá-lo por achar a data memorável. Estavam todos em roupas de festa. 

A bala acertou o peito de Kairala. Ele, que havia se jogado sobre o senador Silvestre Péricles para tentar evitar o tiroteio entre os colegas, chegou a ser levado rapidamente ao Hospital Distrital de Brasília – atual Hospital de Base –, onde deu entrada às 15h45, indo direto para o centro cirúrgico, com os intestinos e a veia ilíaca trespassados. Recebeu 16 litros de sangue por meio de diversas transfusões. Muitos deles doados por senadores e deputados que correram para a unidade de saúde. Em vão. Kairala morreu às 20h05, na mesa de cirurgia.

Senador mudou de lugar para filho fazer foto dele

O senador acreano nada tinha a ver com a rixa dos colegas alagoanos. A princípio, sequer deveria estar na fatídica sessão. Comerciante em Brasileia, no Sul do Acre, a 234 km da capital, Rio Branco, Kairala pediu ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, para participar da reunião de 4 de dezembro no plenário porque só deixaria Brasília no dia 5, data com voo mais barato para Rio Branco, capital do Acre, e queria fazer uma despedida com a família.

“Ao final da conversa, quase timidamente, perguntou-me se poderia vir ao Senado no dia seguinte. E com receio de que eu recusasse, prosseguiu explicando o motivo: acreditava que o senador José Guiomard não chegaria no dia 4; que não havia levado a família nenhuma vez ao Senado e queria que ela tivesse uma lembrança do tempo em que ele foi senador”, contou Moura Andrade, anos depois, em seu livro de memórias.

“Eu lhe respondi que poderia permanecer no recinto no dia seguinte, desde que não fizesse uso da palavra nem votasse na ordem do dia. Perguntou-me se a família poderia ocupar a Tribuna de Honra, e eu lhe respondi que isto era natural, pois ele era um senador e tinha esse direito. Explicou-me ainda que o filho havia ganho uma (máquina fotográfica)  Kodak com flash, que ia tirar um retrato dele sentado no plenário e, portanto, talvez precisasse mudar de lugar para facilitar a fotografia. Eu lhe disse que fizesse tudo o que quisesse. Saiu da minha sala alegre e agradecido”, completou Moura Andrade.

No dia seguinte, antes do início da sessão, estavam na Tribuna de Honra a mãe, o filho e a esposa de José Kairala. Ele conversava com os três animadamente, no momento em que soou a campainha anunciando o início dos trabalhos. Mudou de cadeira por duas vezes. Escolheu a última fila do primeiro lance de cadeiras, diante da Tribuna de Honra. Até então, ele nunca havia sentado naquele lugar, mas era o melhor que convinha para a fotografia que o filho ia tirar. Em seguida começou a confusão que culminaria na morte do senador. Não se sabe se o menino conseguiu a foto desejada.

Devido ao valor histórico, o processo número 967, de 1963, que tem 776 páginas e trata do crime no Senado, foi destinado à “guarda permanente” do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Ele serviu para consulta da equipe de O TEMPO em Brasília.