Segredos de Brasília

Restauradores e museus preservam memória do Senado e da Câmara

Móveis, quadros, esculturas e outros objetos que fazem parte da memória brasileira são preservados pelo congresso, graças a restauradores e outros profissionais

Por Renato Alves
Publicado em 21 de abril de 2024 | 07:00
 
 
O restaurador Antônio Randall e a mesa do Brasil-Império que foi vandalizada em 8 de janeiro de 2023 Foto: Renato Alves/O Tempo

Apesar de ser sexagenário, novo para um Parlamento, o prédio do Congresso Nacional tem muitas relíquias. Móveis, quadros, esculturas e outros objetos que fazem parte da memória brasileira. Para conservar esse tesouro, além de manutenção permanente, há uma equipe de restauradores nos quadros do Senado e da Câmara dos Deputados. As peças sob os cuidados delas estão nos mais diferentes espaços, principalmente nos salões nobres e em museus.

O trabalho desses profissionais ficou evidente após o 8 de janeiro de 2023. Coube a eles recuperar o que era possível no rastro da destruição após a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes da República. Logo no dia seguinte, equipes de limpeza, arquitetura, conservação e restauração iniciaram a recuperação de telas, esculturas, mobiliário, tapeçarias, retratos e muitos outros itens. Mais de um ano depois, o trabalho é reconhecido com exposições que reafirmam o caráter democrático e a pluralidade cultural do país.

Das 21 obras de arte do Senado danificadas pelos vândalos, 19 já foram restauradas, 18 delas no próprio laboratório do Museu do Senado. A única delas consertada por empresa especializada, em São Paulo, foi a tapeçaria de Burle Max – de 3,28m por 4,28 m – porque a equipe de restauração do museu não dispõe de espaço físico e estrutura adequada para o tratamento e transporte de obras de grande porte. A restauração custou R$ 236,2 mil.

Duas peças ainda estão em processo de elaboração de projeto de restauração, por serem também de grande porte: o Painel Vermelho de Athos Bulcão e o quadro de Gustavo Hastoy, com a assinatura do projeto da primeira Constituição brasileira, em 1891. O painel vermelho – de 5m x 5,28m – compõe uma parede divisória do Salão Nobre do Senado, onde ocorrem solenidades culturais e recepções de autoridades. O quadro de Hastoy – de 2,90m x 4,41m – ilustra o Marechal Deodoro da Fonseca recebendo das mãos de seu sobrinho-neto, Mário Hermes da Fonseca, a pena de ouro usada para assinar o projeto. 

Artista autodidata, Antônio Randall, de 65 anos, é um dos 6 restauradores do Senado. “Somos um equipe com especialistas em áreas diferentes, como madeira, ferro, pintura, mas que trabalha de forma conjunta”, ressalta ele, um mestre na madeira. Do 8 de janeiro, tem orgulho de ter refeito uma mesa centenária, do Brasil Império, que ficava na Presidência do Senado e foi completamente destruída. “Ela ficou em 63 pedaços. Outros 9 desapareceram. Tive que remontá-la como um quebra-cabeça. Foram três meses de trabalho”, conta.  

Senado exibe mobiliários e outros itens do extinto Palácio Monroe

A mesa integrava o Palácio Monroe, que sediou o Senado durante 35 anos (1925-1960), no Rio de Janeiro. Reconhecido como uma joia da arquitetura, ele foi inicialmente construído como o Pavilhão do Brasil para a Exposição Universal de 1904 nos Estados Unidos, sendo premiado na Feira Internacional de St. Louis no mesmo ano. Posteriormente transformou-se na sede do Senado, testemunhou importantes eventos políticos cruciais da história.

Boa parte dessa história aconteceu no Plenário do Palácio Monroe, onde ficava o conjunto mobiliário da mostra até a transferência da capital em 1960. Com a demolição do prédio, em 1976, para dar lugar a uma avenida, os móveis foram enviados para Brasília e passaram a integrar o patrimônio do Senado. Após uma pesquisa meticulosa, foi possível recriar fielmente o conjunto de mobiliário histórico conhecido como Plenarinho. 

Em função dos 200 anos do Senado, o espaço ganhou uma exposição com recursos inovadores, elementos sonoros, imagens, documentos e publicações. Outras peças do Monroe estão no Museu do Senado, que pode ser acessado por qualquer um e fica ao lado do Salão Negro, após a entrada principal do Congresso. A Câmara também tem seu museu, igualmente aberto ao público e relíquias da história do Brasil expostas.