Odense

Dinamarca guarda quase 10 mil cérebros em formol sem autorização de famílias

Coleção de cérebros é considerada um verdadeiro tesouro para pesquisas no país

Por O TEMPO
Publicado em 24 de abril de 2023 | 09:40
 
 
 
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A Universidade de Odense no Sul da Dinamarca, guarda 9.479 cérebros preservados em formol.⁠ Os órgãos foram extraídos durante autópsias de pacientes que morreram em institutos psiquiátricos de todo o país ao longo de quatro décadas, até a década de 1980. Estima-se que seja a maior acervo desse tipo no mundo.⁠ 

De acordo com Knud Kristensen, presidente da Associação Nacional de Saúde Mental da Dinamarca, é provável que os cérebros tenham sido preservados sem o consentimento prévio dos pacientes ou de seus parentes.  

Embora sua existência nunca tenha sido um segredo para o governo local. A coleção incomum não fazia parte da consciência coletiva dinamarquesa e gerou um grande debate no país sobre o que fazer com tamanha quantidade de cérebros humanos.

Contudo, após vários anos, o Conselho de Ética da Dinamarca decidiu que era eticamente aceitável que eles fossem usados para pesquisa científica sem o consentimento das famílias. A associação concordou.⁠

Saiba quando tudo começou

O armazenamento de cérebros na Dinamarca começou em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, com órgãos removidos de pacientes com transtornos mentais que morreram em instituições psiquiátricas em diferentes partes do país.

Inicialmente, os cérebros eram mantidos no Hospital Psiquiátrico Risskov em Aarhaus, onde funcionava o Instituto de Patologia Cerebral. Na época, os médicos removiam o órgão após as autópsias e em seguida encaminharam os cadáveres para serem enterrados nos cemitérios próximos. 

"Todos esses cérebros estão muito bem documentados", explicou Martin Wirenfeldt Nielsen, patologista e atual diretor da coleção de cérebros da Universidade do Sul da Dinamarca, em Odense, à BBC Espanha.

"Sabemos quem eram os pacientes, onde nasceram e quando morreram. Também temos seus diagnósticos e relatórios de exames neuropatológicos (post mortem)", prosseguiu Nielsen.

Muitos dos pacientes estiveram em hospitais psiquiátricos durante grande parte de suas vidas. Assim, além dos relatórios detalhados do patologista, os cientistas têm também o histórico médico de quase metade dos pacientes.

"Temos muitos metadados. Podemos documentar muito do trabalho que os médicos fizeram no paciente naquela época, além de termos o cérebro agora", diz Nielsen.

O arquivamento de cérebros parou em 1982, quando a Universidade de Aarhaus se mudou para um novo prédio e não havia orçamento para abrigar a coleção. Em estado de abandono, chegou-se a cogitar a destruição de todo o material biológico. Mas em uma operação de resgate", a Universidade do Sul da Dinamarca, em Odense, concordou em abrigar o acervo.

Desvendando segredos ocultos

A pesquisa sobre a coleção de cerebro de Odense, ao longo dos anos, cobriu uma ampla gama de doenças, incluindo demência, esquizofrenia , transtorno bipolar e depressão .

"O debate basicamente se estabeleceu e (agora as pessoas) dizem: 'Ok, isso é uma pesquisa científica muito impressionante e útil se você quiser saber mais sobre doenças mentais'", disse o diretor da coleção.

Alguns dos cérebros pertenciam a pessoas que sofriam de problemas de saúde mental e doenças cerebrais.

"Como muitos desses pacientes foram internados talvez por metade de suas vidas, ou mesmo por toda a vida, eles também tiveram outras doenças cerebrais, como derrame, epilepsia ou tumores cerebrais", acrescentou.

Atualmente, quatro projetos de pesquisa estão usando a coleção.

A neurobióloga Susana Aznar, especialista em Parkinson que trabalha em um hospital de pesquisa em Copenhague, está usando a coleção como parte do projeto de pesquisa de sua equipe.

Ela disse que os cérebros são únicos porque permitem aos cientistas ver os efeitos dos tratamentos modernos.

"Eles não foram tratados com os tratamentos que temos agora", disse ela.

Os cérebros dos pacientes hoje em dia podem ter sido alterados pelos tratamentos que receberam.

Quando a equipe de Aznar os compara com os cérebros da coleção, “podemos ver se essas mudanças podem estar associadas aos tratamentos”, disse ela.

*Com informações de BBC Espanha e AFP.

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