Gabriel Pazini
@superfcoficial
27/09/19
15h00

Bastidores

Racha, insubordinação e o início dos problemas de Santana no Galo

Jogadores e fontes de dentro do Atlético revelaram situações ao Super.FC nesta semana

Técnico do Atlético, Rodrigo Santana demonstrou aflição durante o jogo — Foto: Bruno Cantini / CAM
Gabriel Pazini | @superfcoficial
27/09/19 - 15h00

O trabalho de Rodrigo Santana no Atlético vinha sendo muito elogiado com todos os méritos e justiça. O treinador, em sua primeira grande oportunidade na carreira, corrigiu vários problemas do time desorganizado que herdou de Levir Culpi, fez a equipe praticar bom futebol, chegar na semifinal da Copa Sul-americana, ocupar as primeiras posições do Campeonato Brasileiro e emendar uma sequência de oito jogos sem derrotas e quatro partidas sem sofrer gols. O Galo vivia uma excelente fase e a confiança do clube e seus torcedores estavam em alta. Isso, porém, mudou em setembro.

Até a vitória desta quinta-feira (26), por 2 a 1 sobre o Colón, pela partida de volta da semifinal da Sul-americana, o Atlético ainda não tinha vencido no mês. Eram cinco derrotas seguidas. Pelo Brasileiro, são seis reveses consecutivos, que fizeram o time despencar para o 10º lugar na tabela e a realidade de Rodrigo Santana mudar, com o treinador passando a ser muito criticado e correndo o risco de perder seu emprego. E a reportagem do Super.FC apurou com jogadores e fontes de dentro do Galo, quando, porque e como a equipe mudou do vinho para a água.

Nas primeiras quatro derrotas, para Athletico-PR, Bahia, Corinthians e Botafogo, o clima ainda era bom e o time estava confiante, até por estar tendo boas atuações nos reveses. A avaliação era de que o desempenho era bom, a equipe criava muitas chances e merecia ter vencido os duelos, mas estava perdendo muitos gols. Isso, porém, mudou na semana do embate com o Internacional.

Juan Cazares foi acusado de agressão e estupro por duas mulheres no início da semana de preparação para o jogo. Depois, chegou 1h20 atrasado ao treino da véspera da partida sem apresentar justificativa. A diretoria reclamou publicamente do fato e prometeu punir o camisa 10 disciplinarmente e financeiramente, e o técnico Rodrigo Santana deixou o meia no banco no primeiro tempo contra o Inter. No entanto, logo no intervalo, com o time perdendo por 1 a 0 para os reservas do Colorado e nitidamente precisando de mais criatividade, o treinador resolveu colocar o equatoriano em campo.

A decisão pegou muito mal no vestiário e foi nesta semana que o ambiente mudou no Atlético. Parte do elenco ficou chateada com a falta de compromisso de Cazares durante um momento tão importante do clube, em semana decisiva antes dos duelos vitais contra Inter e Colón. Alguns jogadores acham que o equatoriano deveria ter sido punido de forma exemplar e sequer relacionado para a partida contra o Colorado. Uma fonte disse ao Super.FC que Santana passou a mensagem de que o camisa 10 poderia fazer o que bem entendesse ao levá-lo para o confronto e utilizá-lo no segundo tempo "quando o jogo apertou".

Em sua entrevista coletiva após a partida, o técnico afirmou que ainda não tinha nem conversado com o equatoriano sobre o acontecimento para não tirar o foco do jogo, e que ainda iria conversar com ele. A declaração também não pegou nada bem nos bastidores do clube. O técnico, porém, teve o respaldo público do diretor de futebol Rui Costa, que disse concordar com Santana. O dirigente, no entanto, foi mais firme em suas declarações, deixando claro que iria punir Cazares, falando mais diretamente e mostrando um descontentamento mais claro com a conduta do jogador e sua falta de compromisso.

O estrago, no entanto, estava feito. No duelo de ida com o Colón em Santa Fé, o treinador quis fazer uma modificação tática no segundo tempo durante a partida. Ao promover a entrada de Nathan no lugar de Vinícius em sua terceira e última substituição, a ideia do técnico era armar uma linha de cinco no meio-campo. Ele fez esse pedido, mas Elias se recusou a obedecer o comandante e disse dentro de campo aos companheiros que eles deveriam jogar com um losango. A ordem de Santana não foi obedecida e, três minutos depois, o Galo sofreu o gol de virada e acabou derrotado por 2 a 1.

No vestiário, como é normal após derrotas, ocorreu uma forte discussão. Elias disse que o time precisava se doar e correr ainda mais em campo. Enquanto alguns jogadores concordaram, outros ficaram muito irritados e alegaram que o próprio meio-campista é quem estava precisando correr mais e só ficava "dando passe para o lado". Não ocorreu nenhuma agressão, mas o clima ficou pesado e a discussão foi feia. O time demorou mais que o normal para deixar o estádio e passar pela zona mista do Cemitério dos Elefantes.

Já na sala de embarque de Rosario para Belo Horizonte, a reportagem do Super.FC, que acompanhou o Atlético na Argentina, observou um irritado Elias sentado sozinho, afastado do restante do elenco. Já o técnico Rodrigo Santana parecia o mais abatido com a derrota. Todos sempre sentem os resultados negativos, é natural, e o treinador sempre ficou bem chateado com os reveses, mas mostrava força e tinha um semblante diferente nas oportunidades anteriores em comparação ao jeito em que estava após a queda no exterior.

Durante toda a passagem por Rosario e Santa Fé, inclusive, a reportagem viu um elenco dividido, comprovando o que foi dito por jogadores e fontes de dentro do clube ao Super.FC. Cazares ficava isolado a maior parte do tempo e só era visto com Otero e Chará, outros estrangeiros e seus melhores amigos no clube. Elias quase sempre estava sozinho ou com Fábio Santos, seu amigo de longa data. Os garotos formados nas categorias de base ficavam mais juntos entre eles, assim como os jogadores mais experientes e com mais tempo de casa, como Patric, Léo Silva e Réver, que voltou neste ano, mas já tem longa e bonita história no Galo.

Na zona mista do Mineirão, após a vitória, mas eliminação na última noite, Elias, sem sequer ser questionado pela reportagem e por outros jornalistas sobre a situação e o elenco rachado, defendeu Rodrigo Santana dando uma cornetada na imprensa e falou sobre a divisão no plantel. "Essa é a derrota mais doída da minha carreira. Esse elenco é muito bom e merecia jogar a final. Falam que está rachado, desunido, mas é mentira. É normal em um grupo você ter mais afinidade com algumas pessoas do que com outras. O grupo merecia ganhar esse título da Sul-americana", disse o volante.

"Eu sou a favor do Rodrigo (Santana) continuar seu trabalho, que está sendo muito bom. Não acho que seja o caminho certo a demissão dele. Não é o momento de trocar (de técnico). O trabalho do Rodrigo é muito bem feito. Vai errar, como todo mundo erra, mas é normal. Tem que dar confiança pra ele, porque ele está fazendo um grande trabalho. Vocês (jornalistas) não falam que o nosso elenco é limitado? Então o Rodrigo está fazendo chover com o elenco que tem (risos)", completou.

O Super.FC tentou contato com algumas pessoas do Atlético, como o presidente Sérgio Sette Câmara, o diretor de futebol Rui Costa e o técnico Rodrigo Santana, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.

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