Josias Pereira
@josiaspereira
15/01/21
07h16

Relatos

Cruzeiro: colaboradores são atingidos por crise e relatam realidade extracampo

Dificuldades da Raposa atingem funcionários e clube busca solucionar pendências para garantir pagamentos

A Toca da Raposa II é o centro de treinamentos do Cruzeiro — Foto: Alex de Jesus/O Tempo
Josias Pereira | @josiaspereira
15/01/21 - 07h16

Roupa suja se lava em casa". Essa foi uma das mensagens do presidente Sérgio Santos Rodrigues em pronunciamento nesta quinta-feira (13), sobre o momento delicado que o clube atravessa. A crise foi escancarada ainda na terça, quando os jogadores decidiram protestar pelo não pagamento de salários - já são duas folhas salariais e meia em atraso, mais o 13º salário. Na quarta, logo após o jogo contra o Oeste, uma vexatória derrota por 1 a 0 para o Oeste, o lanterna do torneio, o atacante Rafael Sóbis escancarou, mesmo que de forma sutil, o problema, afirmando que as pessoas não sabiam 10% do que estava acontecendo no Cruzeiro.

A reportagem do Super.FC buscou contatos com fontes ligadas ao clube, funcionários e ex-funcionários que não quiseram se identificar e que retratam um pouco do momento conturbado dentro da Raposa. Em necessidade, funcionários com salários mais baixos, vêm recebendo apoio de jogadores para a quitação de situações básicas, como alimentação e o pagamento de contas de luz, por exemplo. 

"Todos estão apertados demais aqui", disse uma das fontes.. "Parece uma outra dimensão", acrescentou. 

Felipão sempre foi conhecido pelo aspecto apoiador, e as informações são de que uma vaquinha feita por ele e o grupo têm apoiado as pessoas mais simples do clube. Não só ele, mas também alguns conselheiros, como o caso do empresário Giovanni Baroni, que afirmou à reportagem que ele e outros membros do conselho gestor se juntaram para ajudar, da maneira que podiam, o clube neste momento, como foi feito quando da saída de Wagner Pires. Naquela ocasião, os vencimentos também se encontravam em débito e o futuro do Cruzeiro estava em xeque, como agora. 

Tratamento 

Algumas situações dentro do Cruzeiro seriam reflexo também do tratamento de diretores e do jurídico do clube com profissionais que estão no clube ou que deixaram a Raposa. "As pessoas do clube são muito arrogantes, da forma de negociar com quem eles devem, de tratar os funcionários. Tem jogador que saiu do Cruzeiro com uma relação muito boa, mas que com todas as situações que vêm atravessando não conseguem falar a palavra Cruzeiro mais, justamente pelas pessoas que estão lá, que não sabem conversar direito, desfazem, ignoram", criticou uma das fontes ouvidas pela reportagem. 

Incômodo com a diretoria 

O presidente Sérgio Santos Rodrigues tem sofrido críticas por seu perfil personalista. As lives parecem não ter encantado também o grupo de atletas. Nos bastidores, o Super.FC apurou que alguns dos jogadores se sentiram contrariados com o vídeo de Sérgio chegando à Toca como um 'boleiro', o fatídico dia do pênalti cobrado no goleiro Fábio. 'Será que ele estava tirando onda com a gente?', indagou um dos atletas. 

E com o decorrer da temporada, os atletas também sentiram a ausência de uma figura forte no departamento de futebol para solucionar pendências, como a dos salários. A garantia inicial veio do presidente, mas outros membros do departamento de futebol, como o antigo diretor de futebol e hoje diretor técnico Deivid, não conseguiram executar esse perfil agregador para passar tranquilidade aos atletas. Felipão foi o principal membro aglutinador para evitar uma situação ainda pior do que a não concentração da última terça-feira. 

Situação na sede

Uma outra crítica apontada por fontes ouvidas pelo Super.FC é o de contratações na sede. "Contrataram muita gente, talvez não tão bem qualificada, aumentando também os cargos. Trouxeram muita gente de fora que não conhece a história do clube, que não tem identificação. Gente que recebe 14 mil para trabalhar em um cargo de oito mil", apontou uma das fontes. "Essas situações vão deixando a galera que está lá muito desanimada porque não há nenhuma previsão de melhora. O Cruzeiro está uma bagunça. Um caos total", complementou. 

A base 

A Toquinha também não está isenta de problemas. Antigos colaboradores apontaram ao Super.FC aglomerações durante o período de pandemia, inclusive com a realização de peneiras. Em parte do centro de treinamento dedicado à base, a luz chegou a ser cortada. E o abastecimento, devido à pandemia, passou por problemas, dificultando o preparo das refeições para atletas e funcionários. Os atrasos, também, se configuram por lá. 

"Minha dor no coração é por causa do pessoal mais simples, que estão ali mais pelo prazer de estar no clube do que por dinheiro. Essas pessoas sofrem ainda mais", relatou um ex-colaborador. 

"O que fizeram com um Cruzeiro é inacreditável. Expor isso também é um pedido de socorro para que alguma coisa mude, que algo seja feito urgentemente", destacou outra fonte. 

Em matéria do portal Uol, o Cruzeiro se justificou ainda no ano passado sobre diversas situações na Toquinha, dentre elas do contato com fornecedores, garantindo que não vem faltando insumos básicos, e ainda ressaltou que as supostas aglomerações não  teriam procedência, pois sempre foi exigido a apresentação de exames de Covid-19 para o acesso ao centro de treinamentos. 

Posicionamento 

Sobre os apontamentos levantados na reportagem, a comunicação do Cruzeiro não se manifestou até a publicação da matéria. O presidente Sérgio Santos Rodrigues, no entanto, admitiu em pronunciamento a situação de auxílio aos funcionários que vêm passando por dificuldades. 

“A gente vê saindo notícias de que atletas estão ajudando funcionários. Infelizmente, é uma realidade. A gente também ajuda, aqui na sede eu já fiz isso, outros já fizeram. É uma coisa muito ruim. Estamos em falta? Sem dúvida nenhuma. Vejo que se remete muito ao vídeo que fiz antes da minha posse (em maio de 2020), quando me apresentei ao grupo, na Toca II, em que falava que a responsabilidade dos salários era minha. E continua sendo minha, sem dúvida nenhuma. A caneta, no fim das contas, é minha”, disse. 

Ex-presidente Dalai conclama conselho a se moverem por salvação do Cruzeiro 

José Dalai Rocha, ex-presidente do Cruzeiro, sustentou seu posicionamento sobre uma medida que ele acredita que deveria ter acontecido quando da eleição 'tampão' no clube. "Depois que passa é fácil falar, não quero ser profeta do acontecido. Temos que ter muito cuidado nesse julgamento. Mas eu fui uma das vozes discordantes de eleições. Defendia uma frente ampla de restauração do Cruzeiro, inclusive com a presença dele, Sérgio Santos Rodrigues. Tínhamos que continuar aquele trabalho de rescaldo, mas o presidente, com suas razões, manteve a candidatura, nós passamos a torcer para que desse certo. Inclusive, eu sou sócio Diamante", disse ao Super.FC

O ex-mandatário e hoje conselheiro afirmou, no entanto, que a culpa do momento não é apenas do atual presidente, mas de todos que passaram pelo clube, inclusive ele mesmo. 

"Não é só culpa do Sérgio, é culpa do passado, dos erros cometidos por mim, inclusive. Tivemos também uma situação sui generis no clube, dois tsunamis, o 'CoronaWagner' e o coronavírus. O confinamento destrói tudo, dificulta tudo que você estipula. O planejamento nosso no início do ano era completamente diferente. Fizemos contato com o comércio local de Cuiabá, por exemplo. Queríamos fazer uma projeção nos sites, uma verdadeira propaganda de futebol celeste. Iríamos aos orfanatos para fazer a distribuição de gêneros alimentícios. O Cruzeiro seria uma experiência única de time na Série B, planejamos que chegaríamos às cidades não apenas como um time de futebol, mas como uma entidade social que pensa no mundo. O marketing estava preparado, mas infelizmente tudo mudou com a pandemia", lamentou Dalai. 

Para o ex-presidente, apenas uma união de forças neste momento é capaz de salvar o Cruzeiro e ele apresenta um caminho para transformar o Parque Esportivo do Barro Preto em um complexo comercial.

"Temos que fazer uma frente ampla de esforço. Temos que nos recuperar de alguma forma, sem arrogância, sem egoísmo, com dignidade. Insisto em uma ideia, arrumar um grupo de investidores, que nos adiante R$ 200 milhões, R$ 150 milhões, para que eles transformem o Parque Esportivo do Barro Preto em um centro comercial, sem prejuízo da parte social hoje usufruída. Os empresários seriam coproprietários desse empreendimento", declarou o conselheiro, que também tem uma ideia da criação de um fundo de investimento para o Cruzeiro. 

Dalai confirmou que praticamente todos os imóveis do clube carecem de regularização, mas ele considera que este processo é de fácil resolução.

"Quase tudo não está regularizado, mas aquilo é de propriedade indubitável do Cruzeiro. Ninguém duvida, são detalhes, formalidades, e eu tenho certeza que isso vai contar com colaboração das autoridades", finalizou. 

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