Surreal

Corpo de idosa é trocado e enterrado em cova coletiva por outra família em BH

Parentes só ficaram sabendo da confusão quando o corpo da mulher não chegou para o velório; hospital afirma que culpa seria da funerária que fez o translado do corpo

Por Bruno Menezes, Letícia Fontes e Felipe Castanheira
Publicado em 13 de janeiro de 2021 | 14:46
 
 
 

“Foi uma atrocidade o que cometeram Fizeram da minha mãe um saco de pedras e a jogaram em um buraco”. Foi assim que o aposentado Antônio de Jesus Celestino, de 66 anos, descreveu a dor que sentiu ao saber que o corpo da mãe, Leonora de Jesus Celestina, de 91, foi enterrado na cova destinada ao corpo de Fernando Jesus Reis, de 68.

Vítimas da Covid-19, Leonora e Reis morreram no Hospital São Francisco de Assis, em Belo Horizonte. Ele havia perdido a batalha para a doença no domingo à noite. Na manhã de segunda-feira, a idosa também faleceu. Mas o sofrimento da família foi além de perder um ente querido para o coronavírus.

A troca

Na última terça-feira (12), os familiares de Leonora aguardavam o corpo da idosa para ser sepultado no Cemitério da Saudade, no bairro de mesmo nome, na região Leste da capital. Após um atraso, a família descobriu que o enterro havia ocorrido um dia antes, no Cemitério da Consolação, em Venda Nova. Nesse momento, o mesmo pesadelo começou para a família de Reis.

Segundo o filho do idoso, o vendedor Flaviano Rodrigues Reis, de 41, foi um susto descobrir que o corpo do pai ainda estava no hospital. “Na terça-feira à noite, a funerária me ligou e falou que meu pai não havia sido enterrado e ainda estava no hospital. Enterramos uma pessoa que não era o meu pai. Fomos no hospital ontem e vimos que era o meu pai mesmo”.

Cova coletiva

Para conseguir ter o direito de sepultar o corpo de Leonora, a família precisou pedir a exumação. O procedimento, que ocorreu ontem, foi ainda mais complexo, já que a mulher foi colocada em uma sepultura coletiva, com outras duas pessoas. Todas as famílias precisaram autorizar o procedimento. 

“É muito triste você ver duas famílias que não têm nada a ver (com isso) ter seus entes queridos desenterrados para tirar uma pessoa que não deveria estar ali”, disse Raquel de Almeida Celestino, neta de Leonora, após a exumação.

‘Morto duas vezes’

A família de Fernando Jesus Reis, de 68 anos, já vivia o luto relacionado à perda do idoso para a pandemia, já que acreditava que o corpo dele havia sido enterrado na última segunda-feira (11), no Cemitério da Consolação, em Venda Nova. Quando a notícia de que, na verdade, o homem ainda estava no Hospital São Francisco de Assis, a mulher de Reis imaginou que ele pudesse estar vivo.

O filho do casal, o vendedor Flaviano Rodrigues Reis, de 41 anos, revelou à reportagem do Super, que a mãe, que também é idosa e está debilitada, teve dificuldades de acreditar na troca dos corpos. Mais uma vez, ela precisou entender a morte do marido. 

“Quando falei, ela nem acreditou. Ela perguntou se meu pai estava vivo. Aí expliquei que, na verdade, eles trocaram os corpos. Meu sentimento é de tristeza e revolta. Porque só Deus mesmo”, lamenta o vendedor.

Silêncio

A reportagem tentou ontem contato com a funerária supostamente responsável pela troca dos corpos. Várias ligações foram feitas para o telefone fixo da empresa e também para o celular da proprietária do estabelecimento. Nenhuma chamada foi atendida.

Hospital culpa funerária

O Hospital São Francisco de Assis informou, em nota, que a funerária cometeu um erro no momento de retirar o corpo do centro de saúde.

Segundo o hospital, quando há um óbito, uma identificação é colocada no corpo. O hospital alegou que a funerária não realizou a conferência dessa identificação. “Todas as etapas são registradas e conferidas por meio de protocolos”, informou o texto.

Veja a nota do Hospital São Francisco de Assis na íntegra:

"Em relação a troca de corpos de pacientes com Covid-19 questionada no dia 12 de janeiro de 2021, terça-feira, a Fundação Hospitalar São Francisco de Assis (FHSFA) esclarece que realmente houve um equívoco por parte da Funerária Emirtra no recolhimento do corpo para deslocamento ao local do enterro.

Quando o paciente vai a óbito, é feita a identificação para o mesmo e essa identificação o acompanha em todas as etapas, seguindo todos os processos sistêmicos da Fundação. Todas as etapas são registradas e conferidas por meio de protocolos para garantir a segurança da informação. Neste caso específico, foi identificado que não  houve a devida conferência por parte da Funerária o que, infelizmente, ocasionou na troca dos corpos. Após tomar conhecimento do ocorrido, a alta gestão da Fundação prontamente realizou uma reunião com os envolvidos para solucionar o problema e acolhimento dos familiares. Na ocasião, a Funerária Emirtra assumiu a responsabilidade informando que adotará as ações necessárias para remediar o ocorrido, arcando com todas as despesas.

Ressaltamos que a Fundação é uma instituição filantrópica com atendimento exclusivo ao Sistema Único de Saúde (SUS), e, em seus 10 anos de atuação, nunca passou por uma situação como essa justamente por seguir criteriosos protocolos de segurança. Uma dessas medidas é a opção para as famílias de pacientes que falecem com a Covid-19 reconhecerem os corpos dos seus entes queridos seguindo diversas medidas de segurança.

Apesar de não ter nenhuma responsabilidade sobre o triste fato ocorrido, a Fundação lamenta muito e se solidariza com as dores dos familiares. Sabemos que é um momento de muita tristeza e o enterro faz parte do processo de luto."

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