Ética

Donos de clínica veterinária em BH são condenados por maus-tratos e morte de cão

Local foi fechado pela Polícia Civil em 2019 após uma série de denúncias de crimes praticados pelos veterinários

Por Da redação
Publicado em 18 de maio de 2021 | 16:55
 
 
 

Os proprietários da clínica veterinária Animed, Marcelo Simões Dayrell e Francielle Fernanda Quirino dos Santos, foram condenados por maus-tratos e receberam advertência do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) de Minas Gerais, além de multa imposta, respectivamente, de R$ 1.500 e R$ 900, pela conduta. 

Três decisões foram decretadas, uma nessa segunda-feira (17), referente à atrofia permanente da pata do cachorro Rambo, e a outra nesta terça (18), em audiência que tratava sobre o caso da cadela Malu, que morreu na clínica. O local foi fechado pela Polícia Civil em 2019 após uma série de denúncias de crimes praticados pelos veterinários.

“Após ser atropelada em 2019, ele (tutor) a levou (Malu) na clínica Animed por causa de fratura na pata, mas ela morreu após intervenções comprovadamente desnecessárias e criminosas, não autorizados pelo seu tutor. Os crimes foram confirmados por autópsia que o David (Barreto, tutor da cadela) pediu para a UFMG fazer no corpo da cadela”, alegou uma entidade de proteção animal em nota. 

Além dos processos julgados no CRMV, há um inquérito conduzido pela Polícia Civil sobre crimes praticados dentro da clínica. Dentre o escopo das contravenções cometidas, estão formação de quadrilha, estelionato, maus-tratos a animais, crimes ambientais, ameaças, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.

Procurado, CRMV informou que "ocorreu, nessa segunda-feira e terça-feira, o julgamento pelo Tribunal de Honra do CRMV-MG dos três processos éticos que apuram denúncias contra os médicos veterinários Marcelo Dayrell e Franciele dos Santos" e que "a decisão proferida foi em 1ª Instância, estando garantido a ambas as partes envolvidas o direito de recorrer junto ao Conselho Federalde Medicina Veterinária (CFMV), a quem compete a decisão final em caso de recurso".

"Neste momento, todos os processos correm sob sigilo, conforme previsto no Códigode Processo Ético-Profissional do CFMV, regulamentadopela Resolução nº 1.330/2020", concluiu o Conselho.

Após tentativas de contato sem sucesso, a defesa de Marcelo e Franciele procurou a reportagem de O TEMPO. Em um vídeo enviado à redação, o advogado Frederico Thadeu Peixoto diz que não há provas para impor qualquer tipo de restrição do exercício da medicina veterinária a seus representados. Leia, na íntegra, o conteúdo da fala dele no vídeo:

"Desde novembro, o tradicional Tribunal de Justiça de Minas Gerais, após analisar recurso da defesa, constatou que não havia provas mínimas para impor qualquer restrição a Marcelo e Franciele e, assim, decidiu que ambos estão autorizados a exercer livremente a medicina veterinária. Toda denúncia que pesa contra ambos é fruto de uma perseguição política com interesse financeiro inclusive, de uma pessoa que tenta se alavancar politicamente em cima desta nobre causa dos animais. Porém, repito, são denúncias falsas com interesses excusos. Hoje, mais uma vez o tema foi analisado, nesta nova oportunidade pelo Conselho de Medicina Veterinária. Igualmente, essas mesmas denúncias foram julgadas e mais uma vez ficou decidido que Marcelo e Franciele podem exercer livremente a profissão, ou seja, eles estão autorizados pelo Conselho a trabalhar, conforme a Justiça já havia decidido anteriormente. A defesa reitera e afirma categoricamente: ambos são inocentes, nunca cometeram qualquer crime e o próprio Ministério Público, pouco antes dessa operação, enviava animais doentes e vítimas de maus-tratos para serem tratados gratuitamente na Animed. Então, iremos comprovar a inocência de ambos ao longo do processo".

“Passaram a mão na cabeça de um delinquente”

David Barreto, dono da beagle Malu, que passou por uma cirurgia devido a uma fratura realizada pelo veterinário Marcelo Dayrell e morreu, afirmou à reportagem que, apesar da condenação, houve negligência do CRMV. Ele afirma que irá recorrer ao Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV).

“O relator reconheceu pelo menos uma dezena de infrações ao código de ética médica. Dessas, três são consideradas gravíssimas. Reconheceram todos os ilícitos, mas, na hora de aplicar a pena, não tiveram coragem. Passaram a mão na cabeça de um delinquente. Como se todo meu sofrimento, como se a morte da Malu custasse isso. Foi um belo de um teatro. Vai ser recorrido ao conselho federal”, lamentou.

Quando estava internada na Animed, a cadela passou por um procedimento que, conforme o processo, teve indícios de erro médico. Para “omitir” o que ocorreu, o veterinário planejou reabrir a cachorra. Contudo, o proprietário foi avisado por um funcionário da clínica, não identificado, e ligou para Dayrell proibindo a realização da cirurgia. 

A conversa foi gravada e está arquivada nos autos do inquérito civil. O veterinário ignorou o pedido do cliente e seguiu com a cirurgia. Quando David foi buscar a cadela, ela estava desacordada. O homem chegou a levá-la para outra clínica, mas ela não resistiu ao procedimento.

Uma autópsia foi realizada pela faculdade de veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na qual foi contestada necrose, infecção generalizada, dois parafusos soltos dentro do corpo do animal e uma placa colocada fora da fratura.

“Vou usar a decisão no processo cível e no processo penal”

Bruno Monteiro, dono do cão Rambo, afirmou que não pode comentar oficialmente a decisão, mas disse que vai usar o resultado no processo cível e no processo penal que moveu contra os proprietários. “Vou recorrer para aumentar a pena. Serve para embasar o processo. Não posso falar mais sobre isso”, disse. 

De acordo com o processo, o veterinário Marcelo Dayrell realizou duas cirurgias desnecessárias no animal em 2018 e “inventou procedimentos” para aumentar o valor do pagamento que deveria receber. O homem teria falseado um diagnóstico de leishmaniose e necrose em uma das patas do cão.

Suspeita de conflito de interesses

Confrome relatado a O TEMPO, o atual presidente do CRMV de Minas Gerais, Bruno Divino, é amigo pessoal do veterinário Marcelo Dayrell. Duas fontes, que não quiseram ser identificadas, encaminharam fotos dos dois abraçados, que foram publicadas – e posteriormente deletadas – em redes sociais.

“Porque no dia (de um dos julgamentos) houve acesso ao estacionamento privativo do Conselho permitido a Dayrell? Além das fotos que mostram a amizade, têm coisas destoantes no processo. Estão infringindo o próprio Conselho Federal e o código de ética”, disse uma delas.

Procurado por telefone, Bruno Divino não atendeu às ligações da reportagem. O CRMV também não se posicionou sobre possível conflito de interesses no processo no texto encaminhado à reportagem. 

Cassação

O grupo de tutores cujos animais foram vítimas de Marcelo Simões Dayrell e Francielle Fernanda Quirino dos Santos informou, em nota, que vai recorrer ao CFMV com esperança de que “o processo criminal peça a cassação deles".

Antes da audiência do tutor da Malu na manhã desta terça-feira, ativistas pelos direitos animais fizeram manifestação em frente ao prédio do CRMV. No protesto, havia uma placa com a frase: "CRMV Cassação já de Marcelo Dayrell e Francielle Fernanda".

Notícias exclusivas e ilimitadas

O TEMPO reforça o compromisso com o jornalismo profissional e de qualidade.

Nossa redação produz diariamente informação responsável e que você pode confiar. Fique bem informado!