Ritápolis

Fazenda onde Tiradentes nasceu resiste ao tempo e ao abandono

Propriedade ‘escondida’ na região Central de Minas é uma das únicas que restaram do inconfidente

Por Letícia Fontes
Publicado em 17 de novembro de 2019 | 03:00
 
 
 
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Pela estrada de terra, sem muita sinalização, margeando o rio das Mortes, bem pertinho de São João del-Rei, no município de Ritápolis, na região Central do Estado, uma placa indica: Fazenda do Pombal. O local foi o berço da infância do mais famoso dos inconfidentes: Joaquim José da Silva Xavier. Tiradentes nasceu na propriedade em 1746 e viveu ali até os 11 anos.

Olhando de longe, até parece que está tudo bem, mas da casa e do engenho de açúcar só sobraram ruínas. A fazenda foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na década de 70.

Ninguém sabe o dia exato em que Tiradentes nasceu em 1746. O único registro que se tem é que, naquele ano, ele foi batizado em 12 de novembro, data em que a reportagem de O TEMPO visitou a fazenda, quase três séculos depois. A propriedade onde Tiradentes morou com os pais e os seis irmãos é uma das únicas que restaram dos bens do inconfidente. Quando foi condenado, as autoridades “salgaram” (jogaram sal para tornar infértil) as terras que eram dele. 

Atualmente, o local faz parte da Floresta Nacional de Ritápolis, reserva ecológica administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Diversas espécies de animais – algumas ameaçadas de extinção – vivem na fazenda, cercada por mata atlântica e cerrado. Tatus, raposas, tamanduás, capivaras, lontras e lobos-guarás são vistos com frequência. 

A flora de Ritápolis também tem o maior e mais importante viveiro de mudas de toda a região. São 70 mil mudas de quase 400 espécies, que são vendidas ao público. 

Descaso

O pesar, segundo moradores, está no descaso das autoridades. A fazenda conta com apenas dois funcionários e alguns estagiários e terceirizados da prefeitura. Uma ponte suspensa cruzando o rio das Mortes, que, segundo os antigos da região, Tiradentes usava para ir à escola, está fechada por falta de manutenção desde 2012. As trilhas, uma das atrações do local, estão tomadas pelo mato. Em 2016, a fazenda chegou a ficar fechada por alguns meses por falta de porteiro.

“Aqui é um sítio histórico da nação, que merecia mais cuidado. A figura de Tiradentes é emblemática, é parte da história não só de Minas Gerais, mas do país. (Aqui) vem sendo mantido até onde se pode devido à escassez de recurso e de pessoal, mas é um lugar que merecia mais atenção se houvesse vontade política”, lamentou o historiador José Antônio de Ávila, membro da Academia de Letras de São João del-Rei e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

Propriedade passou por transformações

A origem da Fazenda do Pombal remonta ao ano de 1718, quando os bandeirantes a usavam como ponto de parada em suas incursões pelos sertões de Minas. Naquela época, ela era conhecida como “Parada de São Sebastião”. Quando Tiradentes nasceu, em 1746, a propriedade possuía uma área de 900 alqueires, produzia açúcar e ouro e dispunha de 35 escravos em sua sede.

A casa, que desapareceu, tinha dois andares: a parte superior era usada como residência; e a inferior, como depósito de ferramentas, oficina de ferreiro, senzala e engenho de produção de açúcar.

Quando completou 11 anos, órfão de pai e mãe, Tiradentes deixou a fazenda e foi morar com seu padrinho, em São José del-Rei, hoje Tiradentes. A fazenda, então, foi desmembrada e deu origem a mais três propriedades. Em 1948, foi adquirida pelo Ministério da Agricultura, já com a área reduzida a 89,5 hectares.

De 1945 a 1950, a Fazenda do Pombal passou por outra mudança drástica: o terreno foi terraplenado em toda área onde um dia fora construída a casa de ‘senhores’ para a instalação de um posto fixo agropecuário, com plantação de peral, mangueiral, criação bovina e suína. Hoje restam apenas alguns alicerces cobertos de vegetação.

Tetraneto de Tiradentes, o coronel reformado Adalberto Guimarães Menezes, 92, vê a história se perder. “Era pior, antigamente, as pessoas iam com carro de boi para tirar as pedras das ruínas, as pessoas de São João (del-Rei) não sabem que lá foi onde ele nasceu, não entendiam o valor”, pontuou.

Visitas

Com uma média de 500 visitantes por mês, sendo a maioria de excursões de escolas da região, a Fazenda do Pombal fica aberta ao público todos os dias da semana, das 7h30 às 16h30. O telefone do local não está funcionando atualmente, mas mais informações podem ser encontradas no seguinte perfil do Facebook: “Floresta Nacional de Ritápolis”. A entrada é gratuita.

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