Ilhado na Prudente

'Fiz 2 entregas ainda', conta entregador de iFood que superou alagamento em BH

Wesley trabalha 10 horas por dia para sustentar o filho e a mulher, que está desempregada: mandei vários currículos, não tive sucesso e entrei no aplicativo

Por Bruno Menezes
Publicado em 30 de janeiro de 2020 | 19:30
 
 
 
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“Eu aceito qualquer entrega, mesmo que longe, porque a situação não está fácil, estou desempregado”. A fala é do entregador de aplicativo Wesley Francisco Muniz, 27. Na noite da última terça-feira (28), ele foi flagrado pelo fotógrafo de O TEMPO, Alexandre Mota, em meio à enchente que atingiu a avenida Prudente de Morais e ruas adjacentes, no bairro Cidade Jardim, com água perto do joelho.

No registro, que viralizou nas redes sociais, Wesley aparece com a mochila que faz entregas nas costas e um bastão na mão, dentro da água barrenta que tomou contas vias, tentando encontrar uma rota de fuga que não tivesse obstruções.

Segundo o entregador, a água subiu rapidamente e minutos antes daquele momento registrado na foto, ele havia sido indicado pelo aplicativo para pegar um entrega em um restaurante a 200 metros do local e levar ao solicitante.

“Eu parei no posto (de gasolina) para fazer a coleta. Nesse momento que eu deixei a moto no posto, fui subir a rua e já começou a encher de água. No que eu voltei no posto, a água já tinha tomado conta da rua. Eu cheguei próximo ao restaurante, mas pegar o pedido eu não peguei”, conta.

Assim como outras pessoas no local, Wesley Muniz ficou encurralado pela água que subiu rapidamente, em questão de minutos.

Ele contou que, ao se deparar com a situação, a primeira ação foi mandar fotos para a esposa e dizer que estava tudo bem.

“Eu já tinha mandado foto pra ela (esposa), comunicado a família. Ela ficou preocupada e até disse: ‘você toma cuidado aí e dá um jeito de sair’. A mesma coisa disse a minha madrinha”, contou Wesley. 

No momento do registro feito pelo fotógrafo de O TEMPO, nas proximidade do posto de gasolina, Wesley conta que havia tomado coragem para encontrar uma rota de fuga, mesmo em meio à água que já batia na altura dos joelhos.

Com um bastão de ferro que havia sido trazido até ele pela enxurrada, ele começou a cutucar o chão, para encontrar um caminho sem buracos para sair com a moto.

“Eu estava procurando uma rota de saída. O nível da água estava subindo. E naquele momento eu só pensei: pelo mesmo lado que eu vim é o que eu vou sair. Porque atrás do posto, em uma rua mais alta, já estava seco. Ficava a 100 metros daquele local. Eu estava olhando se não tinha buraco, pra que quando eu fosse passar com a moto ela não viesse a cair no chão”, contou.

Felizmente, o plano deu certo. A rua que fica atrás do posto estava alagada, mas sem correnteza, como na avenida Prudente de Morais.

Com a ajuda de moradores de prédios vizinhos, Wesley conseguiu sair do local. A entrega que deveria ser retirada em um restaurante próximo ao posto que ele ficou ilhado não chegou ao cliente, mas, mesmo após passar pela enchente, ele continuou trabalhando. 

“Fiz duas entregas ainda. Não ali na região, porque no aplicativo ela ficou impossibilitada logo depois”, disse. 

Dez horas de trabalho por dia

Para sustentar a esposa, que atualmente está desempregada, mas faz curso de técnica de enfermagem, além do filho de quatro anos, Wesley Francisco Muniz diz que chega a trabalhar até dez horas por dia, de segunda a segunda. A renda dele é a única da família que mora no bairro Novo Progresso, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.

“Chego a tirar de R$ 80 a R$ 100 por dia. Eu estou conseguindo sustentar a família através do aplicativo, mas não é uma coisa fixa, não é carteira assinada. Tem riscos e eu gostaria de arrumar um emprego, mas as oportunidades são muito fechadas. Mandei vários currículos, não obtive sucesso e mediante a dificuldade entrei no aplicativo”, revelou.

Wesley diz que o último emprego com carteira assinada foi em 2015. Mesmo assim ele não perde a esperança de, quem sabe, conseguir uma oportunidade no mercado formal de trabalho.

“Eu já trabalhei de assistente de loja, trabalhei também como assistente administrativo em gráfica, motoboy e eu estou tentando qualquer área. Um emprego fixo seria a melhor renda para mim. É uma renda que você pode contar com ela todo mês e o aplicativo é uma coisa incerta”, desabafou. 

Rotina dividida

Enquanto o pai trabalha e a mãe estuda, o filho de quatro anos fica aos cuidados da avó materna. Mesmo com a rotina pesada de dez horas diárias trabalhadas, Wesley Muniz conta que tenta arrumar tempo para ver a família no intervalo entre uma entrega e outra.

“Eu volto em casa para almoçar, as vezes volto para fazer um lanche, mas é aquela correria”, disse.

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