Cansada de investir tempo e atenção em relações que julga superficiais, a estudante de cinema Camila Braga, 26, decidiu se afastar das redes sociais e aplicativos de namoro. Uma decisão que tem peso redobrado em um momento em que, em consequência da pandemia, houve uma aceleração da virtualização das interações entre pessoas. É fato, portanto, que, nesse período, as possibilidades de encontrar novas parceiras se tornaram mais restritas. Mas, tudo bem. Afinal, ela garante que o sexo não é, para si, uma prioridade.
“Tenho tentado conhecer as pessoas e suas histórias mais a fundo para saber quem são e como são. Para mim, isso é fundamental. O problema é que continua sendo bem difícil que esse interesse seja recíproco”, comenta a estudante, que se identifica como uma mulher cis, lésbica e demissexual, um conceito que ainda é cercado de mal-entendidos.
Confundida com romantismo e até com moralismo, a demissexualidade é, a grosso modo, uma forma de manifestação do desejo em que, necessariamente, laços afetivos, emocionais e/ou intelectuais precisam ser estabelecidos para que, só depois, ocorra o despertar do interesse sexual – que pode simplesmente não acontecer. Ou seja, para essas pessoas, não faz sentido investir energia no sexo avulso e descompromissado se nenhuma conexão tiver sido construída. E, para alguns, a construção de laços basta por si, sem que a transa seja desejada e necessária para a configuração do relacionamento.
Entretanto, isso não significa que parcela desses indivíduos não possam chegar ao sexo logo no primeiro encontro. Afinal, em alguns casos, esse vínculo necessário para a relação pode, sim, acontecer de maneira mais imediata e intensa. Além disso, é inadequado acreditar que, inevitavelmente, o ideal romântico do amor seria um componente da demissexualidade. Camila, por exemplo, explica que, diferentemente dessa lógica, ela não busca, em suas parceiras, uma “alma gêmea”.
Trocando em miúdos, a forma como a estudante manifesta seu desejo, se comparada com outras pessoas de seu convívio, se diferencia por uma maior valorização dos vínculos em detrimento de outros aspectos, como a aparência e outros atributos físicos.
“Já me forcei a fazer muita coisa para tentar me adequar ao ‘normal’. Tive relações sem sentir atração e fiquei com muita gente só por ficar, mas foi frustrante. Nessas situações, eu não senti nada. O pior é que, quando falo disso, muitos não entendem e acham que é frescura”, critica.
Não reconhecimento
Além da incompreensão social da demissexualidade, o grupo luta contra o não reconhecimento dessas relações, sobretudo quando não há sexo.
“De modo geral, nos guiamos pela capacidade de estabelecer uma relação ou vínculo emocional em decorrência do afeto. E para alguns, nem isso significa que a pessoa poderá ou tem a intenção de transar”, observa o advogado Petterson Sandrey, 27, que defende a desconstrução da “lógica capitalista de que amor romântico estaria no topo das relações de afeto”.
“Trata-se de enxergar indivíduos que, acima de tudo, valorizam e priorizam as relações de afeto, mesmo que o sexo não seja sequer cogitado. Mas, hoje, essa relação ainda precisa ser lida pelo Estado como casamento ou união estável para que direitos sejam reconhecidos”, critica.
“E isso tem um aspecto político importante, pois o próprio Estado só valida relações românticas, o que é um erro. Dois amigos não podem adotar um filho juntos ou financiar uma casa, mesmo que convivam há décadas. Não há direitos sucessórios. Mas, afinal, por qual razão se entende que essas relações são menos importantes? Qual a justificativa para que duas pessoa, que se conheceram há meses ou há poucos anos, sejam vistas como adequadas para, juntas, financiar uma casa, enquanto dois amigo, que convivem há décadas, não? Só pelo fato de que, no primeiro caso, eles transam?”, reflete.
Demissexualidade é um dos espectros da assexualidade
O psicólogo e sexólogo Rodrigo Torres explica que a demissexualidade é um dos espectros da assexualidade, que, por sua vez, diz respeito aos indivíduos que possuem pouco ou nenhum interesse pelo sexo. Mas isso não exclui a possibilidade de eles se engajarem em relações afetivas e, tampouco, significa que sofram com disfunções ou patologias sexuais. Essas pessoas simplesmente convivem bem e não sofrem por falta de uma transa.
No universo da assexualidade, os demissexuais fazem parte do grupo que pode, sim, – mas não necessariamente – levar uma vida sexualmente ativa. Porém, essa atração precisa ser construída degrau a degrau, a partir do florescimento de uma conexão mais profunda. E o tipo de vínculo buscado também vai variar de pessoa para pessoa. Há aqueles que procuram parcerias que admirem intelectualmente e aqueles que querem estar com alguém com quem se sintam seguros, por exemplo.
Torres detalha que a demissexualidade não anula outras dimensões da sexualidade, convivendo com qualquer identidade de gênero e orientação sexual. Isto é, a exemplo do relato de Camila, um sujeito pode se considerar demissexual e, simultaneamente, hetero, homo ou bissexual.
Virtual. A princípio, a virtualidade poderia ser uma aliada das pessoas demissexuais, como observa Rodrigo Torres. “Talvez, a relação no digital possa ser o início desse processo de formatação de vínculos, de conhecer o outro”, observa. O problema, diz Camila Braga, é que a lógica que impera nos aplicativos de namoro se impõe como uma barreira para essa troca. “Muita gente já chega querendo sexo, e isso me deixava meio sem reação, porque sei que não vou conseguir retribuir”, admite.
Dizer de si. O sexólogo defende que, para evitar frustração, os sujeitos demissexuais demonstrem que, para eles, a construção de laços afetivos, emocionais e/ou intelectuais é uma condição para que a relação aconteça. “Nesse sentido, o autoconhecimento e assumir essa característica para si e para os outros é algo importante para a construção de relacionamentos satisfatórios”, avalia.
Texto atualizado às 10:15, em 13/8/2021.