Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

Eu avisei!

Publicado em: Sáb, 22/01/22 - 03h00
 
Existe um poltergeist mineiro em minha casa. Um evento sobrenatural. A diferença é que, em vez de “buuu”, o fantasma faz “nuuu”. 
 
É uma assombração mental, intelectual, nada física, nada palpável. 
 
É que a minha esposa sempre diz, quando algo dá errado em minha vida, que ela me avisou. 
 
Busco revisar na memória a sua fala de advertência, o momento em que ela me alertou do perigo, e não encontro. Não me recordo de nenhuma conversa de censura. 
 
Mas Beatriz insiste em parar em minha frente diante de algum desencanto com amigo ou negócio e declarar: “eu avisei!”. 
 
O mineiro deve avisar telepaticamente. É um aviso por dentro. Um aviso mudo. Um aviso talvez por sobrancelhas, por olhos virados, por esgar, por pigarro, por tosse. 
 
Não fixo o vaticínio. Não registro mesmo. Imagino que seja a sua postura, a sua linguagem corporal, a hora em que vira as costas no meio do diálogo. 
 
O que me leva a crer que, ao mergulhar no silêncio, ao deixar de opinar, ele sabe que coisa boa não vem. Ele pressente o caos com a sua quietude casmurra. 
 
Não quer se meter, não quer ser agourento, então avisa pelas lacunas, pelos lapsos, pelo corte abrupto de sua presença. 
 
É um cinema mudo. Preciso aprender a ler as entrelinhas. 
 
Quando ele larga o assunto, já começa a profecia trágica. 
 
Minha esposa não para de falar. Se ela cessa os seus comentários de repente, teria que identificar que houve um desaconselhamento. Está me dissuadindo implicitamente. 
 
Ao organizar a mala para a nossa viagem para o Uruguai, lembro que ela ficou perplexa que recorri a uma módica mochila de costas. 
 
Destacou que cai a temperatura de noite, que dependia de um pulôver, de uma malha, que não suportaria a mudança do tempo com bermudas e camisas de verão. 
 
Identificando o meu orgulho gaudério, a minha vontade soberana de não carregar peso no aeroporto, de ser livre e solto, de não arrastar cargas pela cidade, de não pagar mensageiro no hotel, ela apenas suspirou, irritada: “Você que sabe, você já tem uma mãe”. 
 
Foi aí, neste instante, que ela me avisou e não percebi antes. Sou dependente de frases feitas, de prints, de provas. Se ela larga o nosso relacionamento sem nenhum bilhete ou mensagem, sou capaz de esperar por dias o seu retorno como se nada tivesse acontecido. Nem estranharei os cabides vazios, acredito unicamente naquilo que é dito. 
 
Não é assim que funciona em Minas. O silêncio é maior do que as palavras. 
 
“Você que sabe” é o precursor do “eu avisei”. Têm uma conexão emocional entre eles. Uma desistência em comum. 
 
Mineiro não compra briga de frente, seu conflito é parcelado, internalizado. Guarda para si as consequências. Não perde tempo descrevendo, didaticamente, o Apocalipse de João. Se quiser ler, procure na Bíblia. 
 
Quando gosta de uma situação, participa. Quando não gosta, abandona a causa. 
 
Em Punta del Este, ela nem me ofereceu o consolo de um abraço nas madrugadas de ventania. Ela só me empurrava para o lado: “eu avisei”. 

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