Fabricio Carpinejar

Poeta escreve todos os domingos no Magazine e no Portal O Tempo

O sotaque mineiro é o mais sensual do país

Publicado em: Dom, 07/11/21 - 03h00
O SOTAQUE MINEIRO É O MAIS SENSUAL DO PAÍS
O sotaque mineiro é o mais sensual. 
 
Não sou eu quem disse, sou apenas uma vítima, já que me casei com uma mineira. Fui presa fácil de articulações sonoras de uma sereia das montanhas. 
 
Saiu uma pesquisa em que cerca de 1,6 mil pessoas de todas as regiões do país foram ouvidas, na primeira quinzena de setembro. O povo do Estado ficou em primeiríssimo lugar, com 35% de aprovação, seguidos de gaúchos (33%), paulistas (27%), cariocas (25%) e pernambucanos (17%).
 
O que talvez mais encanta é que mineiro fala abreviado, mas se demora. Chega de mansinho querendo tudo. 
 
Ele curte as vogais. Expressa-se muito com pouco. E criou jargões particulares para espantar assombro e arrebatamento. 
 
Você sempre sabe o que ele está sentindo. Ele avisa seja por um “Nu”, seja por um “Ê lasquera”, seja por “É mió”. Ninguém chega desavisado no diálogo ou termina encantoado. 
 
Existe um orgulho das raízes no dialeto, uma reverência ancestral ao modo de contar histórias dos avós. 
 
O tempo não envelhece dentro das vozes. O sol ainda é o relógio soberano, o alarme permanece sendo o canto do galo. 
 
A roça continua sendo roça, agora roça grande. 
 
Quem é de fora percebe uma naturalidade, uma espontaneidade na transmissão oral do pensamento. Não é um adereço ou um enfeite,  não é nada forçado, não é de gente que “inventá” moda, a população acredita mesmo no feitiço do mineirês, na sinceridade de cada termo. 
 
Nem precisa consultar o dicionário, ele é o próprio dicionário vivo: a crença na maciez do discurso, a prática de que perguntar é de graça. 
 
Uma das minhas frases de estimação é o “Ispia só”. Não tem como resistir quando Beatriz cochicha “Ispia só” nos meus ouvidos. Eu fico “dirrubado”. Ela me arrepia todo. Difícil é abrir os olhos porque a delicadeza da fala aconchega a fantasia com mistérios, acolchoa o apagão. 
 
Mesmo quando ela discute comigo parece que estamos nos balançando numa rede, não lembra uma briga, pois vem de um lado um simpático “para de atazaná” ou um amistoso “intojo”.
 
Mineiro não ofende: desabafa. Essa é uma das grandezas do seu trato cotidiano. Ele fala de si o quanto está furioso, ofendido, chateado, não  xinga ninguém, não desmerece ninguém.  Há uma postura de catarse um tanto meiga. 
 
Você espera a agressão e vem a confidência, que desarma o orgulho e a arrogância do outro lado. Logo mais estará confortando, dando razão e pedindo desculpas sem saber direito como que aconteceu o milagre da cordialidade. É a atração da empatia. As pedras ficam no chão, obedientes de ternura. 
 
Longe de representar submissão, o temperamento verbal é uma aceitação dos estados de espírito, num autoconhecimento avançado. 
 
Quando Beatriz abre a boca, eu deveria pagar ingresso. Ela merecia receber direitos autorais do ECAD. Ela não conversa, recita. Como se eu estivesse de repente no meio de um poema de Emílio Moura ou Henriqueta Lisboa. As palavras namoram em seus lábios, dançam buscando sempre a compreensão. Está cantando a capela, chego a ver ao fundo esculturas do Aleijadinho. 
 
Minha mulher me trouxe amor mas também paz, paz amorosa “dimais da conta”. 
 
Só o mineiro brinda com copo de cachacinha. Copo pequeno, alma grande.

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