Não se deve aceitar encomenda de amigos e familiares em viagens.
Jamais vai relaxar de verdade.
Você não tem como improvisar o pedido do outro, cheio de especificidades. Não tem como perguntar no calor do momento se pode obter um similar na falta do original.
Carregará uma dívida emocional durante as férias, logo no tempo sagrado de descontração. Enfrentará, por baixo do tecido dos passeios, uma preocupação intrusiva.
Em nossa estada na Grécia, minha esposa assumiu uma missão: comprar um busto em gesso do pensador Platão para sua prima Maria Dulce Reis. Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007) e professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, ela inclusive traduz o pai da Filosofia diretamente do grego. É sua paixão. Acima, só o seu filho Otávio.
Beatriz não tinha como negar. Afinal, Dulce nunca pedira nada.
Em Atenas, entramos em várias lojinhas de lembranças e souvernirs locais. Encontramos miniaturas de todos os pensadores gregos, mas Beatriz, como uma boa mineira, queria olhar tudo, analisar a variedade do mercado para não cometer erros, comparar preços até fazer o melhor negócio. Eu sentia que iríamos percorrer a cidade inteira em busca do tesouro.
Eu dizia:
— Compre logo! Garanta logo! Depois não vai ter mais oportunidade de vir aqui.
Ou ela achava Platão grande demais, ou pequeno demais. Ou feio demais, ou chique demais.
Minha preocupação era apenas não errar a pessoa. Afinal, todos os expoentes da Grécia Antiga se parecem: Tales de Mileto, Pitágoras, Heráclito, Parmênides, Epicuro, Zenão, Sócrates, ainda mais no vulto cavado na pedra branca. Era obrigado a conferir a legenda. Por muito pouco, não confundia o doutor Hipócrates (da Medicina) com o doutor Platão (da Filosofia).
Em pesadelo de olhos abertos, imaginava entregar o sujeito equivocado para Dulce e receber, constrangido, uma lição de história na hora de desembrulhar o pacote:
— Obrigada, mas não é Platão, é Demócrito, que desenvolveu a teoria do atomismo, responsável por grandes descobertas na Física.
Um erro assim custaria caro, tínhamos que evitar. Não daria para retornar a Atenas, devolver o item e solicitar o cidadão certo.
Foi tamanho o pânico na idealização do presente que deixamos para escolher nas praias de Mykonos e Santorini. Só que lá não havia nada de bustos, de pensadores, de Acrópole. Zero chance. As recordações se resumiam a miniaturas das ilhas, casinhas brancas, enfeites de portas e janelas, olhos gregos, batas de linho.
Bateu o desespero. E agora?
Recomendei que Beatriz relaxasse. Certamente localizaríamos o produto no aeroporto de Atenas.
No nosso embarque, porém, quando não mais conseguiríamos reverter a situação, não existia Platão nas prateleiras do comércio do terminal internacional.
Partimos para o Plano B: trazer qualquer coisa de Platão: chaveiro, ímã, camiseta, bloco de notas, caneta, lápis. Compramos de tudo e raciocinamos: funcionaria como o equivalente a um busto.
Não é que Beatriz esqueceu a sacola no bagageiro do avião em nossa conexão?
Arrasada com o fracasso da expedição, e sob o risco real de frustrar uma prima que ela ama tanto e admira tanto, já de volta, em Belo Horizonte, Beatriz não desistiu. Tentou uma última cartada: adquirir o busto de Platão pela internet, no Mercado Livre. Mentiria que era da Grécia.
Com a lupa da malandragem, ampliou imagem por imagem das ofertas. Buscava uma estátua que não tivesse o nome em português. Se possível, uma com a inscrição como em Atenas, nos artigos para turista: Plátōn. Não precisava ser o original Πλάτων.
Quando finalmente chegou o pacote, ela percebeu que se tratava de um boneco de plástico, não de gesso, feito em impressora 3D, com as linhas pontilhadas no rosto. E, para piorar, estava escrito em letras garrafais: PLATÃO.