Amar é escrever uma carta para quem mora com você. Não existe gesto mais doido, mais gratuito.
Eu poderia falar, poderia mandar mensagem, mas decidi, à moda antiga, pegar folha e caneta, firmar a minha letra trêmula nas linhas, cuidar da pontuação e da caligrafia para me tornar legível.
E não se trata da solenidade trágica de um bilhete de despedida – o suicídio do amor –, em que viraríamos as costas, esvaziaríamos os cabides do armário e sairíamos de fininho com a bagagem.
Pelo contrário, é uma correspondência interior, de quem é grato por ficar, de quem escolhe permanecer sempre.
Nem que seja para falar sobre a chuva de pétalas dos ipês de nossa rua, no bairro Funcionários. Ou para lembrar que a rotina segue sendo um trem azul com seus cabelos revoltos ao vento, na janela de nossos caminhos.
Há palavras que encontram sentido unicamente no papel. Conversar é se distrair. Eu me distraio com os seus olhos castanhos me fitando: como é possível que seja inteiramente castanha – pele castanha, sombras castanhas, luz castanha?
Conviver é ser assaltado por assuntos menores e nunca terminar o que começou. Por ter a certeza de que viverei o resto da vida com você, não quero ser capturado pela acomodação de achar que não preciso dizer nada agora, que devo esperar um momento ideal.
Escrevo a você, que divide o apartamento comigo há uma década, não para reclamar, nem para esclarecer alguma discussão ou grosseria. É sem motivo. O amor é sem motivo.
É para confessar que dormir ao seu lado, acordar ao seu lado – por mais que eu repita todo dia – é o maior acontecimento da minha existência. Eu me pacifico. São as minhas melhores noites de sono, com o cheiro do seu pijama. São os meus melhores despertares, com o seu timbre antecipando-se ao alarme.
Não acredito em alma gêmea, mas em alma complementar, em encaixe. E nós nos encaixamos tão bem que dispensamos cola, cimento, argamassa. Foi o musgo da intimidade que cobriu os vãos entre os nossos corpos.
Você me entende antes que eu complete a frase, porque confia na minha intenção. Somos casados nos princípios, no caráter.
Você me ajuda a explicar o que eu pretendia fazer. Você elucida os meus próprios pensamentos. Você organiza as minhas ideias. E, de repente, ouvindo-a, constato: “Era isso, obrigado!”.
Você tem paciência com a gagueira do meu coração. Aguarda até eu conseguir expor o que vem à mente e me ampara, dando tempo e credibilidade ao que realmente não consigo expressar.
Não é que apenas você me conhece, você se interessa por mim.
Eu sei que você me ama. As pessoas escrevem para manifestar o seu amor ao outro; eu escrevo para avisar que sei que você me ama. Não questiono. Reconheço que não há dívida a cobrar. A carência morreu, a ansiedade morreu, só sobrou a saudade: essa fábrica de suspiros.
O hábito conjugal costuma ser o de se aproveitar da falha alheia para dominar, corrigir, retorquir, crescer em censura e importância.
Você não percebe nenhuma das minhas confusões como ataque pessoal ou confronto, e sim como discurso em progresso, de quem não concluiu e raciocina em voz alta.
Há paz em ser um rascunho, sem necessidade de passar a limpo esta carta, e qualquer carta.
Pela primeira vez em minha biografia, eu me sinto bonito. Se alguém não concordar, duvido que tenha coragem de enfrentá-la. Você me convenceu e convencerá o mundo.
Vou envelopar esta missiva, colocar selo e deixar debaixo de nossa porta, reunindo em mim a missão de escriba e carteiro. Merece todo o meu capricho.