Investigação

Depoimento de Marcos Valério pode reabrir caso Celso Daniel

Operador do mensalão fez revelação ao Ministério Público de São Paulo na última quarta-feira

Por Lucas Ragazzi
Publicado em 23 de outubro de 2018 | 02:00
 
 
 

Preso desde 2013, após ser condenado no mensalão, o empresário Marcos Valério prestou depoimento ao promotor Roberto Wider Filho, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), para dar informações que poderiam acrescentar dados à investigação sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel (PT). A partir das novas revelações, a reabertura do caso será avaliada por Wider Filho conjuntamente com os outros promotores paulistas. Valério foi ouvido como testemunha na quarta-feira passada, em Belo Horizonte.

Desde o final de 2017, o empresário vinha costurando um acordo de delação premiada com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), mas não aceitou os termos propostos na homologação pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), no início deste mês. A Polícia Civil, então, entrou em contato com o MP paulista em razão de informações colhidas na colaboração de Valério e que se relacionavam ao assassinato do prefeito.

“Não vamos adentrar no depoimento, mas ele foi bastante esclarecedor, o promotor ficou bastante satisfeito com o que ouviu. São fatos bastante relevantes para o processo”, afirmou o advogado de Marcos Valério, Jean Kobayashi.

Segundo interlocutores, o depoimento do empresário deu contexto e explicou outros fatos colhidos em outras investigações sobre o caso Celso Daniel, como na CPI dos Bingos e na 27ª fase da Lava Jato, a chamada operação Carbono 14.

O MP paulista tentava ouvir Valério desde janeiro do ano passado. Em depoimento à Procuradoria Geral da República (PGR), no final de 2012, o empresário afirmou que o PT foi extorquido em R$ 6 milhões pelo empresário Ronan Maria Pinto e que o dinheiro foi lavado na compra de um jornal. Wider Filho suspeita que a operação financeira possa ter ligações com o assassinato do prefeito. 

O depoimento dado ao promotor paulista aconteceu na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil de Minas Gerais. O encontro começou pela manhã e foi até o fim da tarde. O delegado Rodrigo Bossi, titular do órgão, disse não poder dar informações. “Nós não podemos fornecer detalhes sobre o que foi dito, pois isso faz parte de investigação sigilosa do Ministério Público de São Paulo, além de fazer parte do acordo de colaboração premiada de Marcos Valério”, apontou.

Força

Como foram dadas na condições de testemunha, as informações de Valério são mais valiosas do que as de uma delação. Enquanto o acordo de colaboração é um meio de obtenção de prova, em que os órgãos de persecução vão em busca de provas depois que o colaborador fala, o depoimento de uma testemunha, quando colhido em juízo sob o crivo do contraditório, já pode se tornar prova.

“A colaboração de Marcos Valério é um libelo que será deixado para a história. Ela é um marco, um divisor de águas entre o que acreditávamos ser verdade e o que de fato é. Ela quebra paradigmas, desconstrói heróis e aproxima os extremos. É justamente por esse motivo que não se pode dar publicidade a seu conteúdo nesse momento de efervescência democrática em que vivemos, muito menos deixar que possa ser utilizada politicamente”, conta Bossi, que lidera a costura do acordo de delação com o empresário.

 

Há suspeita de crime político

Então prefeito de Santo André, no ABC paulista, Celso Daniel foi assassinado em janeiro de 2002 quando iniciava os trabalhos como coordenador da pré-campanha de Lula à Presidência da República.

O prefeito petista foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002 quando voltava de um restaurante. Seu corpo foi encontrado dois dias depois. No momento do sequestro, Celso Daniel estava acompanhado do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, seu amigo.

Sombra chegou a ser acusado de ter encomendado a morte porque o prefeito teria interrompido um suposto esquema de corrupção no qual o empresário e amigo estaria envolvido. No fim de 2014, porém, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) anulou o processo no qual Sombra era apontado como mandante do assassinato do petista. Seus advogados alegavam cerceamento de defesa. Com a decisão, o processo voltou à fase inicial.

Em 2016, após deflagração da operação Carbono 14, a Polícia Federal ouviu testemunhas da investigação. Uma delas foi um irmão de Celso Daniel, Bruno José Daniel, que faz acusações contra o PT desde a época do mensalão. Em depoimento do doleiro Enivaldo Quadrado, tomado em janeiro, os procuradores o questionaram diretamente se ele sabia de algo que envolvesse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho na morte.

Quadrado respondeu que não. Também em janeiro, Bruno José Daniel prestou depoimento e voltou a fazer acusações contra Gilberto Carvalho. O irmão também disse que nada sabe sobre a suposta extorsão que o empresário Ronan Maria Pinto teria praticado contra Lula, Carvalho e Dirceu.

Acordo travado

Delação

Um dia após o ministro Celso de Mello, do STF, ter homologado o acordo de delação premiada de Marcos Valério fechado com a Polícia Federal e a Polícia Civil de Minas Gerais, o empresário voltou atrás por discordar com detalhes da negociação.

Tentativa

Apesar disso, a defesa de Valério tenta viabilizar um acordo que melhore as condições do empresário. Em setembro, a Justiça mineira tirou-o da Apac de Sete Lagoas, onde estava desde 2017, para devolvê-lo à penitenciaria Nelson Hungria, em Contagem. A defesa argumenta que ele precisa de cuidados médicos especiais e não pode ficar no local.

Condenado

Preso. Marcos Valério foi envolvido em processos do mensalão do PT e do mensalão tucano em Minas e cumpre pena no Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem.

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