São quase 300 páginas de uma narrativa fantástica inspirada em uma extensa pesquisa que consumiu mais de dez anos sobre Atlântida, lugar mítico e continente perdido (às vezes considerado ilha) que teria existido em algum lugar do Atlântico em eras remotas e que deu origem ao nome do oceano.

Em “As Terras de Atlas”, que está sendo lançado neste mês, Bernardo Lynch de Gregório, médico psiquiatra, psicoterapeuta junguiano e homeopata com especialidade em antroposofia e formação em filosofia pela Universidade de São Paulo, diz que não é possível falar em uma Atlântida histórica.

“No entanto, além dos relatos de Platão, encontram-se inúmeras referências ao tema em mitos de muitos povos antigos, em lendas e em textos religiosos oriundos das mais diversas localidades e sem uma relação histórica evidente que os interligue. O próprio mito do dilúvio, da Bíblia, é um deles. A origem desse conhecimento sobre o tema diluviano e atlante é misteriosa e antiga, como se sempre tivesse existido”, sustenta o autor.

Por outro lado, ele diz, “há diversos achados arqueológicos para os quais a história não é capaz, da maneira como está hoje concebida, de prover respostas plenamente satisfatórias. Na maior parte das vezes, existe um certo desprezo sistemático por esse assunto, e a ciência volta suas costas a temas como Atlântida, relegando-o ao ambiente das lendas e dos ditos mistérios arqueológicos”.

“Atlântis”, do grego, significa “aquilo que é relativo a Atlas” ou, mais especificamente, “às terras de Atlas”. Segundo o mito grego, na divisão do universo, coube ao titã Atlas esta parte do mundo. Porém, mais tarde, tendo o titã conspirado contra Zeus, perdeu seu quinhão de terra para o mar, e foi condenado a sustentar eternamente o mundo sobre as costas.

Atlântida, segundo relatos de Platão, teria desaparecido devido a “violentos terremotos e inundações em um único dia e em uma única noite de desgraça”. Bernardo narra, em seu livro de ficção, os eventos do último ano da existência de Atlântida e a sequência causal que culminou em seu fim.

“Em meio à narrativa, há a preocupação de apresentar ao leitor como poderia ter sido esse local mítico: sua geografia, sua arquitetura, sua tecnologia, a vida cotidiana, a religião e as estruturas sociais”, diz ele.

A lenda de Atlântida vem de textos gregos antigos que descrevem a existência, em eras remotas, de um continente ou uma ilha onde hoje só há o oceano Atlântico. “Platão, por volta do ano 380 a.C., descreveu em suas obras “Timeu” e “Crítias” essa ilha que havia existido 24 séculos antes dele. Não se sabe se a Atlântida à qual Platão se refere seria a civilização pré-diluviana descrita pela Bíblia, mas há referências a civilizações ancestrais e ao dilúvio em outros registros antigos. Hindus, fenícios e babilônicos narravam o mito do dilúvio”, ensina Bernardo.

Referências mitológicas. Para ele, o mesmo se passa com indígenas sul-americanos e povos primitivos da África: “Sabe-se também que os antigos egípcios igualmente se consideravam descendentes de povos ancestrais, que eram como semideuses que colonizaram e fundaram as bases do império egípcio. Fica difícil uma explicação para o fato de essas referências ao dilúvio e às civilizações ancestrais terem sido encontradas geográfica e historicamente tão afastadas umas das outras”.

O escritor usou de várias referências mitológicas para construir sua narrativa. Há textos do filósofo austríaco Rudolf Steiner, baseados em estudos teosóficos de Helena Petrovna Blavatsky, e “leituras hipnóticas” (sessões de vidência sob auto-hipnose) do médium norte-americano Edgar Cayce.

“Esses autores oferecem um panorama bastante completo e complementar sobre o qual criei personagens e o enredo ficcional para ambientar a narrativa. Junto a isso, utilizei ainda um pouco das ideias de Eric von Däniken e do linguista Charles Berlitz, ainda que pareçam bastante estapafúrdias à primeira vista”, esclarece o autor.

Entre o bem e o mal. Bernardo revela que a escolha de uma narrativa ficcional possibilitou liberdade de unir tantas fontes em um único texto. “O mais importante é uma comprovação da existência de relações simbólicas diretas e indiretas entre todos esses escritos. Tomando-se por base a ideia de “inconsciente coletivo”, desenvolvida pelo psicólogo suíço Carl Gustav Jung, essas relações simbólicas demonstram a existência de Atlântida, representada no mito do dilúvio, ainda que não de forma concreta, mas como um símbolo arquetípico original presente e atuante em todos os seres humanos, não importa de que época ou região”, diz.

Em “As Terras de Atlas” fica evidente que os atlantes sustentavam uma batalha íntima. “Esse povo foi o primeiro a conseguir separar o bem e o mal, tal qual é narrado no Gênesis da Bíblia. Com o desenvolvimento da consciência humana, os atlantes lembravam-se de seus atos e dos atos de seus semelhantes, podendo, assim, começar a distinguir os atos que foram de alguma forma agradáveis (ou ‘bons’) dos que foram de alguma forma desagradáveis (ou ‘maus’). Com o tempo, eles distinguiam o bem do mal. ‘Eis aí está feito Adão como um de nós, conhecendo o bem e o mal’, (Gênesis 3:22),” comenta Bernardo Lynch de Gregório.