Fabrício Carpinejar

Fabrício Carpinejar

Poeta escreve às sextas no Magazine e no Portal O Tempo

OPINIÃO

O futebol no meio da relação

Amar é confessar os defeitos e manias. Amar é mostrar que você tem um mundo anterior às afinidades momentâneas de casal

Por Fabrício Carpinejar
Publicado em 17 de maio de 2024 | 03:00
 
 
 

No nosso primeiro encontro, Beatriz falou que não era Cruzeiro nem Atlético.

Eu brinquei:

— Então, é Coelho?

Ela riu, também não era adepta do simpático time do América.

Fiquei com aquela informação na cabeça: ela não gosta de futebol.

Mas não comentei mais nada dali em diante. Paixão é greve de personalidade. O futebol desapareceu para mim no primeiro mês de namoro. Estava apaixonado. Só queria saber dela, de sair com ela.

Beatriz, por sua vez, achou que eu fosse um intelectual: poeta, pensador, autor de livros sobre relacionamentos e sobre a finitude da vida. Supôs que, nas horas vagas, eu privilegiaria livros, filmes, artes plásticas. Jamais cogitou a hipótese de que eu seria um fanático do esporte ou de um clube.

Quando visitamos Porto Alegre, minha cidade, já com seis meses de relacionamento, ela demonstrou seu interesse em conhecer a Fundação Iberê Camargo de tarde.

O amor já tinha chegado em mim. O amor é quando você diz a verdade a respeito de si mesmo. Amar é confessar os defeitos e manias. Amar é mostrar que você tem um mundo anterior às afinidades momentâneas de casal.

Eu disse:

— Não posso!

Foi o meu “não” inicial no romance, o “não” fundador. Reuni as minhas forças para estrear a negativa.

Ela não compreendeu a rejeição:

— Não? Por quê? Tem compromisso?

Expliquei:

— Hoje tem jogo do Inter no Beira-Rio, não posso perder, quer vir junto?

Logo estendi uma camiseta vermelha com o nome dela nas costas, que eu recém havia comprado.

Ela ficou pálida, talvez tenha raciocinado com um frio na barriga: “onde eu me meti?”.

Esclareci que era colorado doente, cônsul do Inter, ia em todos os jogos, contava com três cadeiras no estádio, capaz de viajar para longe em partidas decisivas e vender carro para custear despesas de um Mundial.

Apresentei um quartinho no apartamento porto-alegrense dedicado ao meu time, um santuário com bandeiras, flâmulas, recortes de jornal, pôsteres e revistas comemorativas, pulseiras de partidas memoráveis, faixas de cabeça dos títulos, miniaturas do Fernandão e do Tesourinha, bolas de futebol retrô e uma arara com trinta mantos sagrados que acumulei ao longo de trinta anos.

Ela estava com a boca aberta, de queixo caído:

— Então, você é daqueles que não deixam de assistir a um jogo, que desmarcam qualquer evento?

— Sim. E não esqueça que são vários campeonatos: Brasileirão, Sul-Americana ou Libertadores, Copa do Brasil, Gauchão…

— Assiste a todos?

— E mais: seco os meus rivais. Ou melhor, lavo, seco e passo os meus adversários.

— Mas não sobrará tempo para nada.

— Pois é, eu precisava desabafar!

— Você não é fanático, você é louco!

Depois, descobri com sua melhor amiga que ela tinha um único pré-requisito para um partidão: que ele não gostasse de futebol.

A vida não é perfeita, Beatriz, mas nosso amor é, dentro do possível, de acordo com o calendário da CBF e Conmebol.

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