PODER DA RELIGIÃO

Diálogo com eleitor evangélico é essencial na busca por votos

Especialistas destacam importância do público religioso, que está cada vez mais engajado na política

Por Clarisse Souza
Publicado em 10 de junho de 2024 | 06:09 - Atualizado em 10 de junho de 2024 | 09:10
 
 
 

O desenvolvimento de estratégias bem-definidas para estabelecer o diálogo e conquistar a confiança do eleitorado evangélico será vital para ampliar a base de votos e garantir a sobrevivência de candidaturas majoritárias durante o pleito municipal deste ano. A avaliação é de especialistas em ciência política e direito eleitoral, que consideram ter se tornado “praticamente obrigatório” que postulantes às prefeituras mantenham algum tipo de interlocução com fiéis dessa denominação religiosa, que podem ter peso decisivo na balança eleitoral.

Em Belo Horizonte, onde dez nomes já aparecem na disputa, nove pré-candidatos admitiram à reportagem de O TEMPO que estão atentos às demandas dos evangélicos. Muitos deles já adotam um discurso que mira o estreitamento de laços com essa comunidade na capital.

A preocupação se justifica pelo tamanho desse eleitorado. A última rodada da pesquisa DATATEMPO sobre as eleições em BH, divulgada em abril, por exemplo, aponta que 37,5% dos eleitores entrevistados na capital se declararam evangélicos – apenas 3,9 pontos percentuais a menos do que aqueles que disseram ser católicos (41,4%). A pesquisa foi registrada no TRE-MG, sob número 02336/2024.

“Tendo em vista a relevância social e política adquirida pelos evangélicos no Brasil, é praticamente obrigatório para qualquer candidato a cargo majoritário, pelo menos nas grandes cidades, ter uma estratégia visando a esse grupo”, analisa a cientista política Marta Mendes, que coordena o Núcleo de Estudos sobre Política Local (Nepol), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). 

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, entidade que desenvolve pesquisas para instituições públicas e terceiro setor, destaca a forte influência que líderes religiosos têm sobre os fiéis e indica que, por isso, o grupo não pode ser ignorado. “Os evangélicos são uma parcela crescente e importante do eleitorado. Ignorar esse grupo pode ser um erro fatal para qualquer candidato. Eles têm uma forte presença em áreas urbanas e de menor renda, e muitos líderes evangélicos influenciam diretamente o voto de suas congregações”, explica Meirelles.

Ele lembra que esse eleitorado está crescendo rápido e que pesquisas mostram um envolvimento político maior do que o de outros grupos religiosos. “Em regiões onde os evangélicos são numerosos, não ter uma estratégia para alcançá-los pode custar a eleição. Eles são mobilizados e têm demandas específicas”, afirma.

Vice-presidente da Igreja Batista Getsêmani, que mantém 56 templos evangélicos no país e tem cerca de 55 mil membros em Minas Gerais, a pastora Daniela Linhares diz que “quem entende as demandas do público cristão é aquele que vai sair na frente e ter apoio massivo dos evangélicos”.

Ela confirma que lideranças religiosas têm ampliado o debate sobre consciência política junto aos fiéis e defende que as igrejas precisam se politizar, uma vez que o trabalho social realizado nesses espaços depende do reforço de políticas públicas e de “representantes que verdadeiramente entendam o papel da igreja”.


A doutora em direito do Estado e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Desiree Salgado concorda que “vai ser difícil um candidato a prefeito ganhar a eleição sem uma interlocução com os evangélicos”. Ela ressalta, porém, ser fundamental que políticos e eleitores saibam diferenciar os preceitos morais e religiosos das obrigações do poder público. 

“Afinal de contas, nosso Estado é laico e precisamos preservar essa laicidade para evitar que o comportamento de qualquer pessoa seja restringido por uma crença que ela não é obrigada a compartilhar”, alerta Desiree.

Fiéis cobram compromisso com valores morais e causas sociais

Embora a pauta de costumes tenha ocupado lugar de destaque na condução de campanhas direcionadas aos evangélicos nas duas últimas eleições, a pastora Daniela Linhares afirma que, no próximo pleito, esse eleitorado vai dar preferência aos candidatos que se atentarem às necessidades mais urgentes da igreja, como o suporte a políticas de assistência social. “Não adianta só dizer: ‘Sou conservador’. Queremos candidatos que nos representem, eles precisam saber do que precisamos, principalmente na área social”, ressalta a pastora.

O presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, acrescenta que eleitores evangélicos buscam candidatos que defendam valores morais e familiares tradicionais, mas também querem ver comprometimento com a comunidade e políticas sociais. “No fim das contas, eles votam em quem mostra que entende e valoriza suas preocupações”, observa.

Atento à necessidade de aproximação com os evangélicos, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também tem intensificado a busca por maior interlocução com essa parcela do eleitorado, mas ainda enfrenta dificuldade em vencer a resistência desse grupo, que se mostra, em linhas gerais, avesso às pautas progressistas vinculadas à esquerda. 

Um dos exemplos mais recentes dessa tentativa de aproximação ocorreu em 30 de maio, quando o presidente Lula direcionou uma carta aos milhares de fiéis evangélicos que acompanharam a Marcha para Jesus, em São Paulo (SP). Na correspondência, o mandatário – que não compareceu ao evento, mas enviou o advogado geral da União, Jorge Messias, que é evangélico – disse se sentir “regozijado de ver a dimensão extraordinária” da marcha e “o papel significativo que ela desempenha na vida de muitos brasileiros, promovendo valores de paz, fé, amor ao próximo e solidariedade”. 

O aceno foi mais um dos esforços de Lula e do PT para tentar romper a resistência dos evangélicos. No fim do ano passado, o presidente da República já havia declarado que os petistas precisam encontrar meios para alcançar esse eleitorado. Nos últimos meses, o mandatário também usou com mais frequência palavras que remetem à fé, como os termos “Deus” e “milagres”. 

Templos, inclusive católicos, já recebem mais pré-candidatos

A aproximação do período eleitoral já tem feito crescer a presença de pré-candidatos a prefeito e vereador nos templos religiosos de BH, tanto evangélicos quanto católicos. “Nosso telefone já não para de tocar”, revela a pastora Daniela Linhares, da Igreja Batista Getsêmani.
 
O padre Manoel Godoy, da paróquia São Tarcísio, no Nova Cintra, região Oeste, confirma aumento da presença de candidatos em missas. “Há políticos que se tornam ‘muito religiosos’ nesta época. Fora disso, somem”, diz. Para ele – que é incentivador do curso “Fé e Política”, da Arquidiocese de BH –, tal cenário demonstra a importância de a igreja atuar em ano eleitoral auxiliando os fiéis a “considerar critérios para pensar a política na perspectiva da ética e da justiça, para que eles exerçam a cidadania e não se ‘vendam’ a partidos”. (Com Cynthia Castro)

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