Investimento

Bolsonaro oferece bateria de nióbio a Musk, mas ele recusa, pois quer o lítio

Especialistas garantem que o Brasil tem potencial para se firmar entre os maiores produtores de lítio do mundo, metal essencial para as atuais baterias que movem carros elétricos e fazem os aparelhos portáteis funcionarem

Por Renato Alves
Publicado em 20 de maio de 2022 | 16:21
 
 
 

Na tão propagada reunião de Jair Bolsonaro (PL) com Elon Musk, nesta sexta-feira (20), o presidente ofereceu ao excêntrico bilionário sul-africano a oportunidade de explorar nióbio em território brasileiro. No entanto, o dono da Tesla recusou prontamente a oferta do minério, que o anfitrião defende desde a campanha eleitoral de 2018 como uma das salvações da economia nacional.

"Obviamente, falei com ele [Elon Musk] sobre a bateria de nióbio. E, obviamente, eles estão aprofundando o estudo para agregar o grafeno para que tenha uma super bateria de carga bastante rápida. No momento, isso não está no radar deles", afirmou Bolsonaro, em declaração após o encontro, sem disfarçar a decepção com o bilionário sul-africano.

Além do grafeno, Musk persegue o lítio. Especialistas garantem que o Brasil tem potencial para se tornar um dos maiores produtores do metal essencial para as atuais baterias que movem carros elétricos e fazem os aparelhos portáteis funcionarem. A Tesla, de Musk, é a empresa que mais investe e fatura em carros elétricos. 

O Brasil  tem a sétima maior reserva de lítio conhecida no mundo. São 95 mil toneladas que poderiam ser exploradas de acordo com a tecnologia e as leis atuais.

O total de recursos de lítio no país (que soma as reservas disponíveis ao total do metal ainda inacessível) está estimado em 470 mil toneladas.

Os dados são do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e foram publicados em 2021.

O USGS apontou o Brasil como o quinto maior produtor do metal no mundo em 2020, com produção estimada em 1.900 toneladas. No mesmo ano, a Austrália produziu 40 mil toneladas (1º) e o Chile chegou a 18 mil toneladas (2º).

O consumo do mineral cresceu 18% no ano passado, ainda segundo o órgão norte-americano.

Musk já falou publicamente sobre o seu interesse no lítio

Em 8 de abril, às vésperas da resposta sobre sua admissão ao conselho de administração do Twitter, Musk usou a rede social para divulgar o interesse na mineração de lítio. Ele disse que a investida era necessária porque o preço do metal alcalino “atingiu níveis insanos”.

O tuíte era uma resposta a publicação do World of Statistics no microblog, que mostrava uma alta de 1.753% na valorização do preço da tonelada de lítio entre 2012 (US$ 4,45 mil) e os atuais US$ 78,03 mil (R$ 365,5 mil). 

Musk afirmou que “não há escassez do elemento em si, já que o lítio está em quase todos os lugares da Terra, mas o ritmo de extração e refino é lento”.

O bilionário ainda respondeu "verdade" a um dos usuários da plataforma que disse que seria possível transformar toda a frota de veículos dos Estados Unidos em elétricos usando apenas o lítio do estado de Nevada.

Pesquisadores têm desenvolvido baterias de íons de sódio, outro metal alcalino cuja disponibilidade na natureza é ao menos 300 vezes superior à do lítio. Mas as baterias deste, mais leves, são imbatíveis na densidade energética.

Em 2020, reportagem da revista Fortune citando “pessoas familiarizadas com o assunto” revelou que a empresa do Texas teria adquirido direitos de mineração de lítio no estado de Nevada, nos Estados Unidos. 

Segundo as fontes, a empresa de Elon Musk tomou a decisão após uma tentativa de comprar a mineradora Cypress Development fracassar.

Musk é acusado de participar de golpe contra Evo Morales por causa do lítio

Musk protagoniza teorias da conspiração, alimentadas nas redes sociais, sobre a sua suposta participação na retirada do líder sindical dos cocaleros Evo Morales da Presidência da Bolívia, para controlar os maiores depósitos de lítio do mundo, ainda inexplorados.

Um tuíte do bilionário, em meados de 2020, ajudou a alimentar as histórias sobre a participação em um golpe, que envolveria o governo dos Estados Unidos.

“Vamos dar golpe em quem quisermos. Lide com isso”, escreveu o fundador da fabricante de carros elétricos Tesla, em 25 de julho, ao responder a um post acusando Washington de ter deposto Evo para se apropriar das reservas de lítio, concentradas no salar de Uyuni.

A frase foi citada por Evo para comprovar um suposto golpe de Estado contra ele.

A Bolívia detém 29% dos depósitos mundiais de lítio, segundo o USGS, mas não explora suas jazidas em escala comercial.

Durante os três mandatos seguidos de Evo (2006 a 2019), a Bolívia relutou em aceitar capital estrangeiro para explorar o lítio e fracassou na tentativa de industrializar o mineral em vez de exportá-lo como matéria-prima. 

A administração de Evo comprou uma fábrica de baterias da China, mas a empresa estatal nunca foi adiante.

Em 2019, Evo assinou um acordo com a empresa privada alemã Acisa para produzir até 40 mil toneladas de lítio por ano a partir de 2022, por 70 anos. Em troca, a empresa industrializaria parte do mineral na Bolívia.

O acordo provocou uma onda de violentos protestos no departamento de Potosí, onde fica a jazida. Em meio às acusações de fraude eleitoral, Evo cancelou a parceria com a Acisa pouco antes de renunciar e de partir para o exílio, em novembro de 2019. 

O partido de Evo retomou o poder na Bolívia em outubro de 2020, com a eleição do ex-ministro da Economia, Luis Arce, para a Presidência. Para a esquerda latinoamericana, foi uma derrota para os EUA e Elon Musk.

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