Daniel Ottoni
@dottoni
03/08/20
14h24

Olimpíada

Roubo e rival emprestando material marcaram pódios do Brasil nos Jogos de 1920

Diversos imprevistos, desde viagem em barco sem estrutura até mudança de meio de transporte, marcaram participação do tiro esportivo na Antuérpia

Delegação brasileira contou com apenas 21 atletas nos Jogos de 1920 — Foto: Divulgação
Daniel Ottoni | @dottoni
03/08/20 - 14h24

O começo da presença do Brasil em pódios, em Jogos Olímpicos, teve uma série de percalços, dentro de uma realidade completamente diferente de atual, que foram superados, contando com ajuda de entidades e, até mesmo dos adversários.

Para estar presente na cidade belga da Antuérpia, em 1920, os 21 atletas de natação, polo aquático, remo, saltos ornamentais e tiro esportivo, viajaram à bordo de um navio sem grande estrutura. A falta de espaço ideal para o repouso se transformou em tentativa de convencer o capitão do 'Curvello' para que todos dormissem no restaurante. A ideia foi aceita com uma condição: todos deveriam chegar ao local quando o último cliente saísse e teriam que se levantar antes do café da manhã.

“Estar em Antuérpia 1920 foi um teste para o espírito olímpico dos integrantes do Time Brasil e uma grande prova de superação”, comenta Carolina Araujo, gerente de Cultura e Valores Olímpicos do COB. Ela conta que embaixadores em Portugal e na Bélgica não haviam sido informados sobre a existência da delegação brasileira e, por isso, tiveram dificuldades em ajudar os atletas.

O esporte tinha outra valorização e não recebia a devida atenção da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que não pagou pelas despesas dos atletas. "O sistema esportivo ainda não estava estabelecido e a imprensa noticiou a viagem dos atletas como uma perda de tempo", conta Carolina. 

A parada na Ilha da Madeira rendeu mais imprevistos. Os atletas do tiro esportivo foram informados que sua competição começaria em 22 de julho e a chegada do navio a Bélgica estava marcada para 5 de agosto. Eles precisaram contar com ajuda da embaixada do Brasil em Portugal para embarcar em um trem rumo à Antuérpia. O detalhe: o trem era de carga, com vagões abertos, o que deixou os atletas expostos às condições do tempo. As provas da modalidade estavam marcadas para cidade a 18km de Antuérpia. 

“Foi com esse estado de corpo e espírito que os nossos atiradores, sem dormir e mal alimentados, debilitados ainda mais pelo frio, chegaram a Beverloo, em 26 de julho, ao meio-dia”, escreveu Afrânio Costa, responsável pela medalha de prata, em seu relatório oficial.

Roubo e empréstimo do adversário

Chegando à cidade-sede, os atletas do tiro brasileiro foram roubados, tendo levados munições, alvos e grande parte das armas. Afrânio, que era o chefe da equipe, interrompeu partida de xadrez de dupla norte-americana para pedir emprestado algum material. Foram doados duas mil balas e 50 alvos.

“A inferioridade da única arma livre que possuíamos, em relação as aperfeiçoadíssimas dos nossos concorrentes, não nos permitia ter a menor esperança. Destaquei Fernando Soledade para atirar em 1º lugar: o seu resultado ruim atestou imediatamente a inferioridade da arma. Nesta ocasião, o coronel Snyders, do exército americano e capitão da equipe de pistola livre disse-me: ‘Sr. Costa, esta arma não vale nada, vou arranjar duas para os senhores, feitas especialmente para nós pela fábrica Colt' escreveu Afrânio em seu relatório oficial.

Foi aí que as chances do Brasil aumentaram, com as armas fazendo total diferença para as três medalhas brasileiras, uma de cada cor. Afrânio foi prata, a equipe bronze e Guilherme Paraense foi ouro. 

“Foi uma demonstração de solidariedade muito grande, um bom exemplo do que é o Olimpismo, do princípio da igualdade entre os competidores. É algo que o esporte ensina: o respeito ao adversário. E nada melhor do que ter um desempenho como o do Brasil para honrar uma atitude tão gentil”, explica Carolina.

Não seria sem uma grande festa e reconhecimento que a delegação do tiro do Brasil seria recebida na sede do Fluminense, no Rio de Janeiro. "Era um justo reconhecimento pelo memorável feito! Inúmeras autoridades políticas e desportivas e uma multidão curiosa aguardavam ansiosamente o desembarque da delegação no cais do porto do Rio de Janeiro para conhecer e abraçar o campeão e o vice-campeão olímpico”, completou Afrânio, em seu relato. 

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