'Paternidade'

‘Em BH existe uma disputa muito grande de quem quer ser dono do Carnaval’

Conflito entre governo Zema e Prefeitura de Belo Horizonte pelos 'louros' da festa momesca é a polêmica deste ano

Por Marco Antônio Astoni e Mariana Cavalcanti
Publicado em 11 de fevereiro de 2024 | 06:00
 
 
 

Nas últimas semanas, a grande polêmica envolvendo o Carnaval de Belo Horizonte  foi tentativa do governo estadual de se envolver com a organização do evento, se tornando assim uma espécie de “pai” do Carnaval da cidade. A polêmica foi grande porque o Estado patrocinou o sistema de sonorização das avenidas dos Andradas e Amazonas, contando inclusive, com a presença do governador Romeu Zema (Novo) no local, na véspera do teste. A folia em Belo Horizonte, nos últimos anos, contou com a organização e apoio da prefeitura, com o governo estadual se mantendo distante do processo. 

A tentativa do governo do Estado de ganhar os holofotes com a folia, levou a Prefeitura de Belo Horizonte a reagir. Houve trocas de farpas entre o prefeito Fuad Noman (PSD) com o vice-governador, Mateus Simões (Novo), além de outras rusgas sobre o evento.

Geo Cardoso, o Geo Ozada, criador e cantor do Bloco Baianas Ozadas e Diretor de Relações Institucionais da Liga Belo-Horizontina de Blocos Carnavalescos critica .

"A questão da disputa política do Carnaval é lamentável, porque não sou só um criador e coordenador de um bloco, eu sou dirigente de uma liga, uma entidade que representa outros blocos que se assemelham na trajetória e nos objetivos. São blocos grandes, que têm um trabalho musical ao longo do ano, que estão compondo hoje a Liga Belo-Horizontina. A gente vê com tristeza acontecer essa disputa, porque outros grandes carnavais desse tamanho no Brasil só acontecem com base na parceria entre os entes públicos, a esfera municipal e a esfera estadual. E aqui é diferente, você vê que tem gente que não é dono da festa, da folia, e não é quem realiza, que os realizadores são os blocos de rua, são as escolas de samba, são os blocos caricatos, é quem faz a festa acontecer e mobiliza o público. Não é prefeitura, não é governo, eles são parceiros, eles gerenciam a cidade, gerenciam a festa, mas em Belo Horizonte existe uma disputa muito grande de quem quer ser dono do Carnaval, isso é lamentável, é triste", criticou Geo Ozada.

O professor e historiador Eugênio Raggi também critica a postura do governador Romeu Zema. Para Raggi, Zema tem planos de privatizar e elitizar a folia dos belo-horizontinos.

"É evidente que o governo do Estado quer se apropriar do Carnaval de BH de uma forma assim bastante  efusiva. De maneira muito radical, está se aproveitando disso. Há um movimento de tentativa de elitização do Carnaval. O governador Zema quer transformar o Carnaval descentralizado de Belo Horizonte, que é uma coisa super legal, em um Carnaval centralizado na avenida dos Andradas. A ideia de você sonorizar a avenida é para que você não bote as pessoas correndo atrás do bloco. Você transforma o carnaval em plateia, aí você poder criar os camarotes, as áreas pagas. Um carnaval patrocinado, um carnaval privatizado", disse o professor.

Geo Ozada espera que as autoridades estaduais e municipais deixem as diferenças de lado e entrem em acordo. Segundo ele, a forma com que o carnaval é gerido tem que ser modernizada.

"A gente espera que no Carnaval do ano que vem isso mude. Mude em todos os sentidos, mude a política, crie-se uma política municipal para o Carnaval que não existe, crie-se uma nova lei para a festa, que a gente já está batalhando com o grupo de trabalho do Carnaval na Câmara Municipal, revogue e mude esse Código de Posturas que não atende mais a cidade, não atende o carnaval, não atende a cultura da cidade, não atende Belo Horizonte em 2024. Muitas coisas precisam ser melhoradas, mudar a gestão do ponto de vista do turismo, da cidade que não está atendendo o setor, não dialoga com o setor. Isso é importante ser dito também", aponta Geo.

Munish, coordenador do Bloco do Padreco, que tradicionalmente desfila no bairro Padre Eustáquio, conta que a ação tem objetivo de mostrar que o Carnaval é feito pelo povo de Belo Horizonte:

“Ok, estão sonorizando as avenidas, mas não fizeram mais do que a obrigação. Sempre houve tentativas de diversos políticos de tentar se apoderar do nosso carnaval, mas nós somos um grupo muito atento, e a gente não permite e não aceita, porque a gente sabe que o carnaval foi feito e criado pelo povo e assim permanecerá”, afirma Munish.

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