IMPACTOS

Arroz, aço, lácteos, eletrônicos e calçados: chuvas no RS impactam produção e distribuição, com efeitos nacionais

Laticínio troca produção de leite por água, mercado congela preço e indústria altera logística no RS; Lula fala em importar arroz e feijão

Por Redação
Publicado em 07 de maio de 2024 | 12:55
 
 
 

Por volta das 19h desta segunda-feira (6/5), Guilherme Portella, diretor de Comunicação e ESG da Lactalis, estava tenso. Dos cerca de 40 funcionários da empresa que perderam tudo nas enchentes que assolam o Rio Grande do Sul desde o fim de abril, uma jovem aprendiz, Jully, continuava em situação crítica.
"Pelas últimas informações que recebi agora à noite, ela está ilhada no telhado de uma casa [em Teutônia], com o namorado, uma criança e alguns animais", disse Portella, enquanto recebia atualizações sobre a situação da jovem.

A empresa já havia acionado uma lancha para chegar ao local, sem sucesso. O resgate só poderia ocorrer por jet ski, o que não seria possível à noite, por causa da baixa visibilidade. Na noite de domingo (5), a empresa conseguiu resgatar dois funcionários que estavam ilhados.

Uma das maiores fabricantes de leite e derivados do país, dona de marcas como Parmalat, Itambé, Elegê, President e Batavo, a Lactalis vai reverter a produção de leite em Teutônia, a 111 km de Porto Alegre, para água envasada. A ideia é distribuir até 1 milhão de litros.

Assim como a Lactalis, as enchentes no Sul mobilizam os setores produtivos na ajuda à população gaúcha e também causam impactos nos negócios. Hoje, há congelamento de preços em mercado, empresas reveem operação logística e o comércio eletrônico sofrerá atraso nas entregas. A indústria e o agronegócio sofrem com os efeitos da tragédia.

O Estado é o quarto PIB (Produto Interno Bruto) do país, atrás de São Paulo, Rio e Minas. Abastece o mercado nacional, além de ter forte comércio exterior. No caso da francesa Lactalis, por exemplo, 5 das suas 20 fábricas no Brasil estão no Rio Grande do Sul, onde emprega 3.000 dos seus 12 mil funcionários.

Em Teutônia, a produção foi reduzida em 70% por causa da enchente no Vale do Taquari, que contaminou poços artesianos e afetou a captação de água. "Mas agora que o nível da água baixou, conseguimos retomar a captação e vamos começar a produção de água potável no lugar do leite", diz Portella. A entrega está prevista até sexta-feira (10) em razão da crise de desabastecimento na capital.

A iniciativa conta com o apoio de fabricantes de embalagens como Logoplaste, Packseven e Converplast. A dificuldade agora é encontrar um parceiro para disponibilizar 45 caminhões para levar a água a Porto Alegre. Até esta segunda, as chuvas haviam deixado 85 mortos e 310 feridos, além de 134 desaparecidos, segundo a Defesa Civil. O número de municípios afetados chegou a 380 de um total de 497 cidades gaúchas.

A Lactalis decidiu antecipar o 13º salário para todos os funcionários prejudicados pelas cheias. Já a Panvel, quinta maior rede de farmácias do Brasil, tem 67% das operações concentradas no Rio Grande do Sul. Ela e a Lojas Quero-Quero (55%) são as duas companhias de capital aberto mais afetadas pela tragédia, segundo relatório do BTG Pactual.

Varejista de materiais de construção e eletrônicos, a Quero-Quero afirmou que a extensão do impacto da catástrofe na companhia ainda está sendo avaliada e que no momento dá prioridade ao bem-estar e à segurança dos funcionários.

Em comunicado, a Panvel lamentou o impacto das chuvas e "em especial a devastação sofrida por Eldorado do Sul", onde fica sede do grupo. "Nossa prioridade acima de tudo é cuidar das pessoas", disse o CEO da Panvel, Julio Mottin Neto, em nota.

O acesso ao centro de distribuição da empresa em Eldorado do Sul está bloqueado. A Panvel redirecionou a logística para o seu centro de distribuição em São José dos Pinhais (PR), que já abastece as lojas de Santa Catarina, Paraná e São Paulo.
A empresa prepara uma remessa de milhares de caixas de medicamentos contra leptospirose para doação.

Já a Renner, com sede em Porto Alegre, disse que cerca de 4% das unidades do grupo (o equivalente a 27 lojas) estão fechadas. Segundo o BTG, 13% das lojas do grupo estão no Rio Grande do Sul (com exceção da rede Camicado).

A empresa afirma que não tem CD no estado, o que não compromete o fornecimento fora da região. O Carrefour, por sua vez, afirmou que a partir desta terça (7) todas as suas lojas no Rio Grande do Sul terão congelamento de preços de todos os seus produtos.

A medida é válida para todas as bandeiras da companhia no estado: Carrefour, Atacadão, Sam's Club e Nacional. O congelamento terá data-base de 1º de maio. No momento, 20 lojas da rede estão fechadas no estado. Com sede em Parobé, a fabricante de calçados infantis Bibi suspendeu "as operações industriais do Sul" e está "dando suporte de atendimento aos clientes e fornecedores". A empresa destaca que as entregas do ecommerce poderão ser afetadas.

Já a Arezzo, que mantém um polo de produção de calçados e acessórios em Campo Bom, a 56 km de Porto Alegre, afirmou que vai "flexibilizar o vencimento de títulos de franqueados e lojas multimarcas, antecipar recursos financeiros e auxílio, com itens de consumo, aos colaboradores afetados."

Maior produtora brasileira de aço, a Gerdau paralisou as atividades das unidades de Charqueadas e Riograndense (Sapucaia do Sul) "em respeito aos seus colaboradores, colaboradoras, familiares e parceiros", por segurança.
De acordo com o grupo, não houve unidades impactadas e a paralisação não vai afetar as entregas.

Segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), dez unidades produtoras de carne de aves e de suínos estão paralisadas ou com dificuldades extremas de operar pela impossibilidade de processar insumos ou de transportar colaboradores.

O estado produz 11% da produção de carne de frango e 19,8% da produção de suínos nacional, que são direcionados para consumo nas gôndolas do próprio Rio Grande do Sul e para a exportação.
A associação diz que a prioridade é salvar vidas e alimentar os animais. "Núcleos de produção enfrentam não apenas perdas estruturais, mas também itens básicos como água, luz e telecomunicações", afirma, em nota.

No setor de transportes, Latam, Gol e Azul suspenderam voos para Porto Alegre ao menos até 30 de maio. O aeroporto Salgado Filho está debaixo d'água. Já a Rumo afirmou que a operação de trens foi parcialmente afetada e "os danos aos ativos ainda estão sendo devidamente mensurados".

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) anunciou no domingo (5) pausa em pagamento de dívidas. Itaú, Bradesco, Santander, BTG Pactual, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal aderiram à iniciativa.

Haverá liberação do chamado "saque calamidade" do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), ações de auxílio para funcionários e familiares na região, abertura de agências para recebimento de doações e o reforço de orientações às equipes de seguros para o atendimento da população local.

Até o início da noite de segunda, o Magalu havia doado 1.840 colchões para ONGs, escolas, igrejas e prefeituras. De acordo com a varejista, a operacionalização das entregas das doações é feita de forma voluntária pelos funcionários das lojas e do centro de distribuição, com a utilização dos caminhões da companhia.

As fortes chuvas que atingem o Rio Grande do Sul desde o fim de abril acendem um alerta para os impactos também provocados na agricultura. É que o Estado, responsável por mais de 70% da produção brasileira de arroz, pode ter a colheita do cereal - que começou oficialmente em fevereiro - afetada pelas inundações. Conforme uma pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), “a colheita, que já estava bastante atrasada em relação a anos anteriores, pode ser ainda mais prejudicada.”  

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta terça-feira (7), que o governo federal pode ter que importar arroz e feijão por causa do atraso da colheita da safra no Rio Grande do Sul. Segundo o petista, a medida pode ser necessária para equilibrar a produção do agronegócio e conter o aumento dos preços dos alimentos. A declaração foi feita durante o programa “Bom dia, presidente” da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). (Com Folhapress)

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